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9 de abril de 2011

Clint Eastwood: Uma lenda (mais do que) viva


CLINT EASTWOOD: UMA LENDA (MAIS DO QUE) VIVA...

“No início uma mera incógnita... No final uma plena certeza!”

Foi exatamente no dia 31 de maio do distante ano de 1930 e na cidade de São Francisco que nascia uma incógnita para a humanidade: Clinton Eastwood Jr. Primeiramente tido como um “x social”, hoje é uma das maiores lendas da sétima arte e, a seguir, você poderá conferir com detalhes toda a carreira histórica do “homem sem nome”, do policial Harry Callahan, do assassino sangue-frio William Munny, do treinador de boxe Frankie Dunn, do velho rabugento Walt Kowalsky, ou simplesmente do ícone Clinton Eastwood Jr!

Nascido em São Francisco, o garoto Clint pertencia a uma família de classe média e protestante. Seu pai (Clint Eastwood) era um operário metalúrgico, enquanto sua mãe (Margaret Ruth) uma trabalhadora fabril. Rodou toda costa oeste norte-americana devido aos diversos trabalhos do pai: Redding, Sacramento, Pacific Palisades, de volta à Redding, Sacramento, Hayward, Niles, Oakland, etc... Realizou um sonho, formando-se na Universidade de Oakland, porém após a faculdade mantinha empregos “vagabundos”, como frentista de posto e tocador de piano em um bar.

Apesar dos miseráveis trabalhos que prestava, Eastwood foi – como seus futuros personagens – valente para percorrer as trilhas que o levariam para o sucesso: começou em filmes de produção B, principalmente em ficções ou suspenses; muitas vezes nem era creditado, já que só aparecia uma vez ou outra. Alternava-se entre a televisão e o cinema. Por um momento, a televisão venceu a batalha e Eastwood participou do seriado “Rawhide”, ambientado no velho-oeste. Tal série foi produzida durante 1959 e 1965, com mais de 200 episódios e foi um sucesso de época.

Mas, para quem acredita que este foi o cume inicial do sucesso artístico de Eastwood, se engana: outra incógnita (Sergio Leone) procurava alguém para interpretar o hoje famoso “homem sem nome”; muitos atores foram contatados, até que a oferta foi parar nas mãos de Clint, o qual apenas aceitou porque iria conhecer a Europa (local das gravações). Com ajuda do destino, é formada uma das maiores duplas do cinema e do faroeste. Juntamente com o diretor italiano, Eastwood não mudou apenas sua própria história, mas também a história do cinema com os famosos westerns spaghettis. Aliás, Clint e cinema até soam como sinônimos: um mudando a história do outro.

Famoso pelos trabalhos com Sergio Leone, Eastwood agora recebia o apoio e as lições passadas por outro diretor com quem teve sucesso: Don Siegel. Ambos os diretores (Leone e Siegel) até foram homenageados com a obra-prima “Os Imperdoáveis” (1992), a qual Clint dedicou aos seus mestres do cinema. Isto já deixava claro o grande passo que Eastwood dava em sua carreira, deixando de ser aquela incógnita para transformar-se em resultado mais do que certo: um ator sério, durão, valente, charmoso, sedutor e por vezes sensível.

Eastwood juntamente com um de seus mestres: Don Siegel.

Já consolidado como ídolo da nação após os trabalhos de sucesso em que atuava, Clint decidiu se aventurar por trás das câmeras, porém não deixou o hábito de aparecer em suas obras, o que até hoje é uma marca registrada do artista. Foi no ano de 1971 em que Eastwood estreou como diretor, no thriller intitulado “Perversa Paixão”, muito bem recebido pela crítica. Inclusive, a maioria dos trabalhos de Eastwood como diretor são bem criticados, sendo que ele é considerado o único ator da história cinematográfica a estrelar filmes de sucesso por cinco décadas. Para compensar seus sucessos, Clint Eastwood tornou-se o diretor da “Malpaso Productions” , uma companhia criada pelo seu assessor. A empresa existe desde 1968 e foi financiada com o dinheiro da “trilogia dos dólares”. É muito famosa devida sua eficácia ao realizar películas, demorando pouco tempo para filma-las em relação às outras produtoras.

Adentrando na parte mais pessoal de Clint Eastwood, o artista conta com um número estrondoso de filhos (sete, no total), sendo que são de cinco mulheres diferentes. Além disso, também já foi envolvido por uma série de polêmicas, principalmente após o lançamento de uma “biografia não-autorizada”. Até mesmo um dos seus mais famosos personagens (Harry Callahan, em “Magnum Force”, de 1973) dizia: “um homem precisa saber suas limitações”, porém Eastwood parece que não aprendeu com “Harry, o sujo”: em tal biografia, o autor Patrick McGilligan diz que o artista teve casos extraconjugais com outras mulheres, era obcecado pelo dinheiro e não tinha nada de profissional em si. De tudo isso, não sabemos o que é verdade ou não para julgá-lo.

Além todas suas grandes relações em comum com a sétima arte, Eastwood parece que tem algo em particular com as urnas eleitorais: já foi eleito – duas vezes – como o ator favorito dos estadunidenses; e, para quem nem imagina, Eastwood é também presente na política, sendo do Partido Republicano desde 1951 e tendo em seu currículo o cargo de prefeito de Carmel-by-the-Sea, entre 1986 e 1988. Inclusive, a cidade é o local de seu primeiro filme como diretor, o qual já foi citado anteriormente.

Como já se não bastasse, Clint Eastwood também possui muitas ligações com a música: em seus “anos rebeldes” tocava piano em bares, porém a medida que a fama lhe subia pela cabeça ele também mostrava sua apreciação pela música blues e pelo jazz. Até fez um recente documentário sobre o estilo musical intitulado como “The Blues - Piano Blues” , em que conta com entrevistas de grandes músicos consagrados. Além de entrevistas, tais músicos tocam e conversam de forma bem humorada com Eastwood, o qual até “arranha o piano” em algumas brechas. Inclusive, Clint Eastwood canta uma música no final de seu recente e excelente “Gran Torino” (2008), em parceria com seu filho músico Kyle Eastwood e com o ídolo pop Jamie Cullum.

É também em Gran Torino que Clint Eastwood finaliza – com chave-de-ouro – sua participação como ator no cinema. No filme, somos levados diretamente até um show de atuação, um show de direção e um show melodramático, o que representa a obra do diretor/ator. Tudo se combina e se encaixa perfeitamente na película.

Música cantada por Clint Eastwood e Jamie Cullum nos créditos da obra-prima “Gran Torino”.

Devido a todos seus feitos cinematográficos, não é a toa que Clint Eastwood merecia a premiação máxima da sétima arte: venceu quatro Óscares de Academia, sendo dois como “Melhor Diretor” e dois como “Melhor Filme”, ambos de “Os Imperdoáveis” (1992) e “Menina de Ouro” (2004). Apesar de não ter vencido nenhum como “Melhor Ator”, todos sabem que Eastwood já fez mais do que sua obrigação para o cinema e que, se continuar do jeito que está, fará mais ainda.

Atualmente aos 80 anos, Clint Eastwood continua produzindo todo ano – como um incansável jovem – películas tão boas que chegam a nos surpreender: lançou em 2009 (um ano antes da Copa do Mundo na África do Sul) um filme sobre a vida do ex-presidente sul-africano Nelson Mandela (interpretado pelo amigo Morgan Freeman); não deixou 2010 em branco e lançou “Além da Vida”, um drama de caráter religioso, tentando nos esclarecer uma pergunta que não quer calar: “como é a vida após a morte?”. E como já foi definido, dirigirá uma película prevista para ser lançada em 2012, com Leonardo DiCaprio no papel do fundador e ex-diretor do FBI, J. Edgar Hoover.

Para quem ainda tem alguma dúvida sobre o potencial artístico de Clint Eastwood, basta apenas ler e reler este artigo, até que se perceba o quão especial Eastwood é, observando os mais variados presentes que ele trouxe para o cinema e o que o cinema trouxe para ele. Do jeito que anda produzindo, rezamos para que ele continue por muito mais tempo na ativa e, com toda certeza do mundo, posso afirmar que Clint Eastwood é e continuará sendo uma das maiores personalidades do mundo cinematográfico já existente.

O nome “Malpaso” é derivado de uma região onde Eastwood viveu, localizada ao sul de Carmel-by-the-Sea, onde mais tarde se tornaria prefeito. O primeiro filme realizado pela Malpaso foi “Hang’em High”, um faroeste estrelado pelo próprio Eastwood.

“The Blues – Piano Blues” (2003), além de ser dirigido por Clint Eastwood, foi produzido por outro dos grandes ícones norte-americanos: Martin Scorsese. Para quem vive no Brasil, o documentário passou por algumas semanas na TV Cultura aos sábados de madrugada.

12 de fevereiro de 2011

O mundo cinematográfico de Sam Peckinpah

O MUNDO CINEMATOGRÁFICO DE SAM PECKINPAH.

Para que possamos definir quase que completamente o mundo cinematográfico de Sam Peckinpah – importante diretor que foi esquecido e até mesmo desprezado por Hollywood – é preciso de apenas três palavras: polêmica, realismo e violência. “O poeta da violência” – como era conhecido –, Peckinpah tinha esse apelido devido ao seu estilo de filmagem, sendo como um “precursor do slow motion”, efeito utilizado em cenas que necessitavam de mais emoção, como tiroteios. E este tal apelido de Peckinpah poderia ser facilmente herdado por diretores de hoje que se inspiram nele e também adoram a arte da violência. Um fácil e preciso exemplo é Quentin Tarantino, mostrando isto em suas principais obras-primas como “Kill Bill” (2004) e “Bastardos Inglórios” (2009). Tarantino é também fã declarado de faroeste, gênero que colocou Peckinpah no auge das discussões, e que acima de tudo, ainda o coloca, apesar de que atualmente o trabalho do diretor é mais reconhecido do que antigamente.
Mesmo quando fez “Meu Ódio Será sua Herança” (1969), o qual foi o seu filme de maior destaque – inclusive concorreu ao Óscar de melhor roteiro original feito pelo próprio diretor –, a crítica não o recebeu bem, devido à intensa violência que é mostrada. Para que se tenha uma noção desta violência, apenas na última cena do filme foram gastos mais de doze dias e mais de dez mil balas de festim. Se isso aconteceu apenas na cena final, imagina em todo o filme, onde os tiroteios ocorrem a quase todo momento?! Mas por outro lado, é aí que também entra o toque do diretor: sem medo em colocar suas ideias em prática, sem medo do resultado final, porém sabendo que ali tem a magia do diretor. Outro detalhe que não foi dito ainda é que, por trás de toda esta violência, Peckinpah se inspira na Revolução Mexicana para fazer a base da película. Como nessa época as mudanças eram constantes, podemos ver isso claramente: enquanto oscowboys acabavam, os homens de terno estavam apenas nascendo. Assim como a areia dos desertos davam lugar aos asfaltos; os cavalos aos carros; e as armas... Bem, as armas comuns, de seis tiros, davam lugar às metralhadoras, às pistolas e muitas outras com mais poder de fogo!

Mais tarde, em “A morte não manda recado” (1970), percebemos um Peckinpah abalado, talvez por causa das críticas de seu trabalho anterior. Apesar do nome do filme parecer um tanto quanto horripilante, não possui nenhuma ligação com a película em si. Aliás, o diretor chegou mais perto de uma comédia romântica do que de um “faroeste propriamente dito”, com tiros para todos os lados e coisas do gênero. Até pareceu que o diretor encarou o trabalho como um humor da época de Charles Chaplin, incluindo trapalhadas e sarcasmo. Porém, após este diferente trabalho por parte de Sam Peckinpah, o diretor voltou a filmar em 1971 ao seu maior estilo “Peckinpah de dirigir”. Polêmica, realismo e violência acompanham outro de seu maior filme: “Sob o domínio do medo”. O trabalho foi por fora das telas um fracasso de crítica e público um tanto maior quanto o seu primeiro, acredite! Para penalizar Peckinpah, foi preciso que o filme fosse proibido em vídeo na Inglaterra (local das gravações) até o ano de 2002. Visto isso, em 2003 o filme estava brilhando como algo novo. A Criterion Collection, distribuidora de vídeo dos Estados Unidos, reeditou a película, deixando-a como merece: mais incrível que a original.

Após a produção de “Sob o domínio do medo”, Peckinpah realizou mais dois filmes antes de polemizar outra vez: “Dez segundos de perigo” e “Os Implacáveis” (ambos de 1972). Em “Os Implacáveis”, o diretor conta com o renomado ator Steve McQueen. O filme não passa de clichês do gênero “tiro, fuga, policial e ladrão”, que na linguagem da sétima arte pode se resumir simplesmente em... “ação”. Bem, é claro que Peckinpah não deixou de colocar suas mãos para trabalhar e deixa sobre nossos olhos as suas principais características no resultado final: câmeras lentas, além de cortes rápidos e precisos.

Já em “Pat Garrett & Billy The Kid” (1972), o diretor contou com a sempre companheira Polêmica ao seu lado. Enquanto o diretor modificava o roteiro de Rudy Wurlitzer, o cantor country Kris Kristofferson entrava para o elenco e ainda puxava a então mulher Rita Coolidge e o amigo Bob Dylan para fazer uma ponta na película. Falando em Bob Dylan, temos que aplaudi-lo, pois além de atuar muito bem, o compositor ainda preparou toda a trilha sonora, a qual também é espetacular. O clássico de Dylan “Knockin’ On Heaven’s Door” faz aparição na cena mais emocionante e cativante da película: um tremendo tiroteio entre Pat Garrett (representado por James Coburn) e um velho amigo. Mas agora você deve estar se perguntando: “E onde entra a polêmica?”. A polêmica entra exatamente na produção: os produtores pressionavam Peckinpah para que o filme fosse terminado o mais rápido possível, fazendo com que as gravações se transferissem para Durango, no México. Além disso, o filme foi mais prejudicado ainda quando o estúdio adulterou o mesmo, teve seu tempo estourado e os orçamentos cresciam cada vez mais. A tradução de tudo isso é o grande fracasso de público e crítica, acrescentando mais uma polêmica na conta de David Samuel Peckinpah.
Já no ano de 2004, um documentário sobre o diretor foi lançado (“O Oeste de Sam Peckinpah: O Legado de um Renegado de Hollywood”), mostrando como Peckinpah mudou o cinema e principalmente o “gênero americano por excelência”, como definiu o crítico francês André Bazin, fazendo referência ao famoso bang-bang. Conta com raras entrevistas de Sam e participações do cantor e ator Kris Kristofferson, além do diretor Billy Bob Thornton. Foi dirigido por Tom Thurman e venceu o prêmio de melhor documentário do Festival Bronze Wrangler, dedicado principalmente para premiar artistas diversos do mundo western, tanto do meio cinematográfico quanto do meio musical e literário.

POR BRUNO BARRENHA.