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10 de maio de 2012

Crítica: A Proposta

THE PROPOSITION

(A PROPOSTA)

Direção: John Hillcoat

Roteiro: Nick Cave

Produção: Chris Brown, Chiara Menage, Jackie O’Sullivan e Cat Villiers.

Ano: 2005

Elenco: Guy Pearce, Ray Winstone, Emily Watson…

Duração: 104 minutos

Um dos grandes nomes do western moderno se passa na Austrália e destaca a soberba fotografia e a não menos excelente trilha sonora.

Análise: Sem sombra de dúvida, a melhor época do bang-bang dentro do cinema foi entre as décadas de 50 e 70. Entretanto, de lá para cá, percebemos que o número de filmes do gênero decaiu muito – não só em quantidade, mas também em qualidade. Com poucos sucessos obtidos, desses lançamentos pós-época de ouro e até o final do século XX, o que mais resguardou glórias foi o premiado filme de Clint Eastwood, Os Imperdoáveis (1992). Já nos últimos anos, podemos ver que a produção de filmes do estilo cresceu, e sua qualidade também. Bons exemplos são O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford (Andrew Dominik, 2007), Os Indomáveis (James Mangold, 2007), e Bravura Indômita (Irmãos Coen, 2010). Sem contar que, ainda no fim deste ano, teremos o lançamento de mais um western muito esperado: Django Livre, do sanguinolento Quentin Tarantino. Assim, a proposta de John Hillcoat para com o público de seu faroeste moderno acaba tornando-se um desses grandes westerns lançados ultimamente, tendo todos os elementos necessários para o sucesso de crítica e de público, com destaque para a história muito interessante, escrita por Nick Cave e que se passa na Austrália – pouco requerida para faroestes – durante a colonização dos ingleses.

Após uma calma música cantada por uma criança, acompanhada de imagens de soldados, nativos, cidadãos, de uma cidade e outras tantas que apresentam a antiga Austrália e os créditos iniciais, temos um início do filme que quebra o ritmo tranquilo com muitos tiros, motivados pelo cerco dos soldados ingleses em uma casa onde estão localizados os irmãos Charlie (Guy Pearce) e Mike Burns (Richard Wilson), membros da quadrilha dos Burns, famosa por fazer um brutal ataque contra a família Hopkins. O Capitão Stanley (Ray Winstone), então, propõe que Charlie mate o membro mais perigoso de sua gangue, para que o seu irmão mais novo, Mike, não seja enforcado. Charlie tem até o Natal, oito dias, para reencontrar seu outro irmão, Arthur (Danny Huston), e conseguir salvar o ingênuo Mike, mas não sem antes envolver-se com os nativos e alguns desafios, e o capitão Stanley tendo que arcar com as consequências da arriscada oferenda em um fim cheio de violência.

Atualmente, as câmeras possuem uma ótima qualidade e, consequentemente, isso permite a captação de lindas imagens – melhores do que as captadas no século passado, obviamente. É de tal modo que, em A Proposta, podemos nos satisfazer com uma ótima fotografia, aproveitando as belas paisagens do deserto australiano e abusando de figuras contrastadas entre o céu e o deserto, principalmente naquelas com o pôr-do-sol – elemento também presente em O Atalho (Kelly Reichardt, 2010) e o já citado O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford.

E as semelhanças entre os trabalhos dos diretores Hillcoat e Dominik não param por aqui: ambos os filmes tem a parceria de Nick Cave e Warren Ellis, e possuem o desenvolvimento da história em uma atmosfera tensa e com falas que nos fazem pensar. A ótima trilha sonora ajuda a manter tal ambiente, com o revezamento entre as músicas dramáticas e outras elétricas, as quais ajudam a aumentar as expectativas com o desenvolver da película. O destaque fica para The Rider Song, poética melodia cantada por Nick Cave e servindo como uma música-tema, fora suas outras muitas variáveis.

O personagem de Arthur Burns, interpretado pelo ator Danny Huston (foto) é um dos líderes de gangue mais diferentes: assassino de sangue-frio, tornou-se um homem-cachorro – não dormindo e sempre atento. Porém, ele não se coloca por cima de tudo nem de todos, querendo o bem de seus irmãos, mesmo sendo machucado por Charlie e aceitando a situação. Já o próprio Charlie é o tipo silencioso, vendo em seus olhos um criminoso perfeito, mas cansado de tal vida. Completando os irmãos Burns, temos o caçula Mike, que mostra ser um jovem bem incauto, não sabendo direito o que faz e nem as consequências de seus atos.

John Hillcoat realiza, aqui, uma verdadeira obra-prima, com ótimo aproveitamento do que tinha em mãos, sobretudo de uma fotografia rica de detalhes, como a beleza vista na cena em que um carrasco torce seu chicote para limpá-lo do sangue de Mike. Além de tudo, A Proposta faz certa crítica ao machismo da época, o que aumenta o embate inserido no contexto histórico que se passa nas telas.

MINHA NOTA PARA ESTE FILME:

ANÁLISE FEITA POR THIERRY VASQUES.

5 de maio de 2012

Crítica: Renegado Heroico

SPRINGFIELD RIFLE

(RENEGADO HEROICO)

Direção: Andre De Toth

Roteiro: Charles Marquis Warren e Frank Davis

Produção: Louis F. Edelman

Ano: 1952

Elenco: Gary Cooper, Paul Kelly, Lon Chaney…

Duração: 93 minutos

Despretensioso como deve ser, um dos conflitos mais encenados pelo western recebe uma visão além de tudo já famigerado no gênero.

Análise: Evidentemente, posterior ao conflito entre os peles-vermelhas e o homem branco, o assunto mais tratado em faroestes norte-americanos é o choque entre os próprios homens civilizados, como a Guerra Civil que abalou o país na segunda metade do século XIX, tornando-se um protótipo para o cinema. Até mesmo em produções estrangeiras, tais temas aparecem em grande escala: um dos exemplos mais pertinentes é o dos westerns spaghettis, copiando à exaustão não só o gênero estadunidense por excelência, mas também os fatos que se ocasionaram no país-berço do velho-oeste.

Ainda impulsionando a faixa musical típica dos westerns feitos nos Estados Unidos da América, somos transportados – em uma cena pós-créditos iniciais – diretamente para o interior do Departamento de Guerra do país, onde dois oficiais discutem um telegrama sobre o desaparecimento de cavalos e espionagem. Curiosamente, esta é a intriga que resistirá sobre o enredo durante todo o filme.

Apesar de não abrir por completo suas cortinas, o espetáculo transita mais algumas locações antes de se impor e criar o constante clímax: Colorado é o paradeiro essencial para a batalha entre os saqueadores cinzentos (os Confederados, do Sul) e aqueles que deveriam impedir tal ação adversária e se utilizariam da tática de espionagem (representados pelos yankees, os azuis ou a União, do Norte). Desde o início, pode-se perceber que os sulistas são tratados com mais aversão, oferecendo o ponto-de-vista do diretor e dos roteiristas para tratar do assunto.

“Estas espingardas representam a força de 30 homens. Não há carregamentos pelo cano. A culatra abre-se assim. E ejeta o invólucro. Carregamos e atiramos em poucos segundos.”

E, de pouco a pouco, até mesmo com certa dificuldade, vamos tendo conhecimento geral da obra: a primeira aparição do Major Lex Kearney (Gary Cooper) nos transmite sua posição perante todos ao seu redor, sendo um homem de pulso-firme e de palavra, daqueles que se impõem. Ele é o ex-marido de Erin (Phyllis Thaxter), com a qual tem um filho recentemente desaparecido ao fugir da escola. Paralelamente a isto, Lex é admitido pelo Tenente Hudson (Paul Kelly) como um espião entre os sulistas, tomando a responsabilidade para si em transmitir informações dos inimigos.

O trio liderado pelo Major ‘Lex’ Kearney (Cooper): Capitão Edward Tennick (Philip Carey) e Sargento Snow (Guinn Williams).

Como a maioria dos faroestes estadunidenses da década de 40, todo o argumento de Renegado Heroico é baseado em uma estória, esta sendo de autoria de um roteirista de Hollywood: Sloan Nibley, o qual não participou do processo de escrita do roteiro do filme, servindo apenas como inspiração para as mentes e mãos dos autores Frank Davis (o mesmo companheiro de De Toth três anos depois, em A Um Passo da Morte) e Charles Warren. Assim, a construção de todo o contexto é bastante complexa, chegando até mesmo a ser confusa, pois passa a criar muitos nós em nossa cabeça de tantos personagens que estão espionando uns aos outros e, por vezes, nem sabemos. Além disto, as desordens geradas são a partir de motivos vagos, quase servindo como uma “violência gratuita”, isto é, sem objetivo para ter acontecido. Como consequência, o resultado final de determinadas cenas justificam-se previsíveis e dispensáveis, salvando-se somente as valentes coreografias e os pontos altos de tensão, porém não impedindo de afetar diretamente o filme.

A direção, de Andre De Toth, rende pouquíssimos detalhes, utilizando-se de tal elemento somente quando extremamente necessário; em compensação, as visualizações abertas são praticamente metade de toda a projeção, buscando inspecionar todo o local para ambientar seu espectador. Entretanto, em cenas noturnas, climatizadas em ambientes de pouca luminosidade e que renderiam uma boa sequência de imagens, sente-se falta de uma iluminação mais explícita e, sendo assim, o trabalho de De Toth perde todo seu brilho metódico e reflexivo, possibilitando apenas visões confusas de pessoas em movimento.

O ponto mais alto do filme, sempre ritmado àquilo que acontece nas telas, é a trilha sonora, de autoria do compositor Max Steiner. Seja ao seguir o reflexo dos espelhos empregados como código em missões dos ladrões de gado ou em simples cenas de ação, a musicalidade nunca deixa de estar presente: os ritmos frenéticos impostos pelo ranger dos instrumentos de Steiner aumentam a crise em certos momentos e fazem um simples gesto se tornar algo mais.

Ao contrário do sucesso alcançado pela sonoridade, a edição de Robert L. Swanson, mesmo com sua eficácia em algumas circunstâncias, também peca em várias oportunidades, cedendo aos inúmeros planos abertos que não apresentam qualquer finalidade narrativa, senão a beleza imagética apreendida pelas lentes do diretor de fotografia, Edwin DuPar, o qual resolve apostar em paisagens naturais: ora frias ao contrastar com as dimensões gélidas das locações de Lone Pine, ora secas nas planícies de Warner Ranch.

Uma quantia considerável de erros, porém muito mais de acertos: esta é uma das definições para Renegado Heroico, outro western do caolho diretor húngaro, Andre De Toth. A tarefa do cineasta, aliás, não era nada fácil: transferir uma história tão multíplice e excessiva como esta para pouco mais de 90 minutos. Como resultado, os forasteiros cinéfilos podem até se deliciar com as reviravoltas possíveis a qualquer segundo e atuações regulares de um elenco liderado pelo sempre carregado Gary Cooper.

Portanto, o filme se distingue por não conter qualquer presença do humor pastelão (o que dá um ar mais agradável e maduro) e dos peculiares clichês que rondavam os projetos cinematográficos naquele período clássico do gênero, como, por exemplo, a presença quase nula de uma mulher. Na época, apesar de não ser o centro das atenções, as personagens femininas tinham papeis de destaque dentro dos filmes, normalmente representando as esposas dos bravos guerreiros e lutadores, ou então, dos pistoleiros. Vale afirmar, ainda, que o filme foi realizado dois anos antes de Johnny Guitar (Nicholas Ray, 1954), o qual foi responsável por abrir novas fronteiras à figura feminina no gênero do western ao transformar uma mulher não só em pistoleira, mas também em protagonista, dando um chute no saco dos machistas de plantão.

E, mesmo que uma obra de ficção, muito adiante das desinteligências entre os personagens, em Renegado Heroico também é contado – apesar de que em segundo plano – sobre a incorporação de uma nova arma ao Exército Norte-Americano. Ou seja, não é por um mero acaso que o título original do filme seja “Springfield Rifle”, referenciando-se ao tal equipamento. A propósito, antes dos créditos iniciais, De Toth aplica um interessante conceito aos espectadores através de um zoom dramático na arma, a qual está pendurada, em sinal de que foi colocada em um pedestal e idolatrada ou, simplesmente, abandonada. Ao decorrer da projeção, percebe-se que ela ocupou importantemente uma boa parte da vida do protagonista Lex Kearney e, o que aconteceu com ele, é uma das hipóteses acima: o esquecimento ou a idolatria?

MINHA NOTA PARA ESTE FILME:

ANÁLISE FEITA POR BRUNO BARRENHA.

28 de abril de 2012

Crítica: O Homem do Oeste

MAN OF THE WEST

(O HOMEM DO OESTE)

Direção: Anthony Mann

Roteiro: Reginald Rose

Ano: 1958

Elenco: Gary Cooper, Julie London, Lee J. Cobb...

Duração: 100 minutos

Derradeiro trabalho de Anthonny Mann no interior das ambientações do velho-oeste também reflete em um retrato quase terminal do gênero.

Análise: O Homem do Oeste é um western norte-americano que data do ano de 1958, sendo o último dos oito trabalhos do consagrado realizador Anthony Mann na década de 50 – cinco deles contando com a presença do eterno parceiro, James Stewart. Apesar deste não ter a participação de Stewart, o destaque vai para o premiado e soberbo Gary Cooper, em um de seus últimos projetos da carreira. Assim, o filme se destaca com uma história um tanto incomum para o gênero, utilizando-se de pouquíssimos clichês.

Desenvolvendo-se em torno de Link Jones (Cooper), um vaqueiro que viaja a procura de uma professora para a sua cidade, porém é deixado para trás – juntamente com a cantora Billie Ellis (Julie London), e Sam Beasley (Arthur O’Connell) – por um trem que fugiu de um assalto frustrado. O trio, portanto, à procura de um lugar para passar a noite, encontra a fazenda em que Link foi criado. Lá, ele reencontra o seu tio e antigo parceiro de crimes: Dock Tobin (Lee J. Cobb), o qual obriga o sobrinho a voltar para a gangue que Link abandonou para se tornar uma pessoa melhor.

Depois da volta de Link, a história vai se focar justamente nas desavenças entre o revigorado Link Jones (protegido e tendo a confiança de Tobin) contra o resto da gangue, que desconfiam que ele vá fugir novamente.

Apesar da inúmera quantidade de acertos, o grande revés de O Homem do Oeste é as falhas das cenas de ações que, às vezes, ficam um tanto quanto esquisitas e difíceis de acreditar. Mesmo com isto, a grandiosidade do tiroteio final não se perde em nenhum momento. Anthony Mann nos entrega um belo trabalho em sua despedida do gênero, com uma favorável história, muitas vezes deixando o filme com um ar tenso e um tanto depressivo e, poucas vezes, cômico.

Diferente das atitudes dos outros filmes ambientados no velho-oeste, o vaqueiro protagonista interpretado por Gary Cooper é forçado a matar, apesar de não querer isto, já que ele não queria apodrecer como os criminosos. Normalmente, temos o contrário: eles querem vingança! Muito mais além, o incomum também está presente com Link sendo um homem casado, tranquilo ao não querer relembrar seu passado.

Lançado em época de mudanças nos westerns norte-americanos, na qual o gênero estava falecendo dentro de Hollywood, O Homem do Oeste se caracteriza por ser um dos últimos faroestes clássicos, começando a ter cenas de ações mais violentas responsáveis por inspirar os trabalhos do sucessor Sam Peckinpah, diretor que revolucionou o western e que já usou uma temática parecida em sua filmografia: a briga entre velhos companheiros.

MINHA NOTA PARA ESTE FILME:

ANÁLISE FEITA POR THIERRY VASQUES.

10 de março de 2012

Crítica: A Um Passo da Morte

INDIAN FIGHTER

(A UM PASSO DA MORTE)

Direção: André De Toth

Roteiro: Frank Davis e Ben Hecht

Produção: William Schorr

Ano: 1955

Elenco: Kirk Douglas, Elsa Martinelli, Walter Matthau...

Duração: 88 minutos

Falta de visão em um olho não é problema para De Toth. Aliás, ele consegue enxergar muito mais além que muitos outros cineastas!

Análise: Uma das circunstâncias mais irônicas (e icônicas!) já observadas no interior do universo cinematográfico vai direto para a conta do cineasta húngaro André De Toth, o qual adquiriu maior notoriedade pelo eminente fato de ter realizado o primeiro e mais bem sucedido filme em 3D e a cores da história de um grande estúdio norte-americano (no caso, a Warner Bros.): The House of Wax, com a participação do astro do terror Vincent Prince, no ano de 1953. Até o que foi contado, não há nada de tão esquisito, porém vale acrescentar que, muito acima de tal façanha, o diretor perdeu a visão de seu olho esquerdo ainda quando jovem, impossibilitando-o de enxergar em três dimensões e, consequentemente, não tendo recebido os efeitos de sua própria fita.

Porém, transcorridos dois anos da realização deste marco na história da sétima-arte, o “cineasta caolho” (e também um dos mais célebres de seu país) partia então para a realização do faroeste Indian Fighter, intitulado no Brasil como A um Passo da Morte, e que conta com a presença do sempre expressivo Kirk Douglas no papel principal. Certamente, não tinha como dar errado!

Sem quaisquer tipos de delongas, Indian Fighter já se introduz a todo vapor depois de passados os peculiares créditos – revestidos pela melodia que exala uma sensação de quietação, pela visão das árvores que se agitam e do rio por onde correm águas límpidas, pelo céu impoluto e desanuviado. Tudo mostrado através de um mesmo plano, o qual mais tarde nos revelaria – em um movimento de câmera – a presença da protagonista Onahti (Elsa Martinelli) à beira do dito riacho, preparando-se para um banho. Enquanto faz sua ação, outro personagem dá as caras: é o valente e galanteador Johnny Hawks (Kirk Douglas), cavalgando em direção à tribo de seu amigo indígena Nuvem Vermelha (Eduard Franz). Somente mediante este trecho é possível perceber como se dá excitante o início do filme.

“Me devolverá os búfalos que a sua gente matou? Limpará os ribeirões que os seus sujaram procurando o ferro amarelo? Devolverá a beleza da terra? Já tenho a única riqueza que quero... A que vê em nós!”

Como de praxe entre os mais clássicos westerns norte-americanos, o principal “ponto de atrito” na história de Indian Fighter será o conflito entre os homens brancos e os peles vermelhas, tendo como o centro das atenções o apaziguador da situação, Johnny Hawks. A citação narrada acima – pelo chefe Nuvem Vermelha quando este conversava com Hawks – não só é um exemplo de como o filme irá tratar este sensível assunto com destreza, mas também um modo de colocar o ponto de vista indígena sobre tal complicação que assolou os Estados Unidos.

Contudo, o motivo por levar ambos os grupos ao atrito não são apenas questões históricas, mas sim o desejo pela posse do ouro – que é de total domínio indígena no filme. Entre questões de trocas, trapaças e traições se constituirá um complexo passatempo de “gato e rato”, sendo que nenhuma das duas partes (nem homens, nem índios) têm os mesmos objetivos que a outra.

- Quantos índios matou?

- O suficiente para me manter vivo.

E, adicionando frases de efeito como esta é que o roteiro vai ganhando forma e compondo a estrutura narrativa de Indian Fighter; o trabalho de escrita da dupla Davis-Hecht é ainda fundamentado na história do autor Robert L. Richards, como era bastante comum no antigo gênero do velho-oeste. Hoje em dia ainda se sustentam algumas pouquíssimas obras adaptadas às telonas, como por exemplo, o último trabalho dos irmãos Coen: Bravura Indômita (True Grit, 2010).

Franz Waxman assina responsavelmente a composição da trilha sonora, baseando suas canções em relação com a situação vivida nas telas: os romances são retratados a partir de canções melódicas e profundas, as aventuras se tornam intensas devido à veemência das batidas musicais, as tensões agregam ruídos naturais e instrumentais, etc.

Já a direção de fotografia, por Wilfred M. Cline, aposta em planos mais abertos e gerais, para tentar criar uma sensação de liberdade e também impor completamente o cenário na mente dos espectadores. As paisagens montanhosas e arborizadas peculiares de determinadas regiões estadunidenses ainda acrescentam o clima mais calmo, sem as nuvens poeirentas e vermelhas – características do Monument Valley.

A listagem de atores, distribuída desigualmente entre o onipresente Kirk Douglas e artistas de baixa qualidade e reconhecimento, acaba por se render ao brilhantismo e habilidade do personagem principal. Com exceção de Lon Chaney, Elisha Cook e mais alguns poucos atores, o resto do elenco não seria capaz de salvar o filme.

Normalmente, os minutos iniciais de uma fita são calmos, com uma apresentação de atores mais cautelosa e uma publicação da história sendo mais meticulosa e reflexiva ao decorrer do tempo. Porém, partindo do princípio em que tal projeto se trata de apenas mais um dos filmes B de André De Toth, o quebra-cabeça imposto pelos roteiristas Frank Davis e Ben Hecht precisa ser construído da forma mais apressada possível, desenvolvendo a história e seus derivados sem enrolação nem tempo para delírios. O resultado, portanto, só pode ser a curta duração para um longa-metragem (1 hora e 25 minutos) em conjunto com a diversidade para um jeito diferente de se fazer cinema.

MINHA NOTA PARA ESTE FILME:

ANÁLISE FEITA POR BRUNO BARRENHA.

7 de março de 2012

Crítica: Garringo

DEAD ARE COUNTLESS

(GARRINGO)

Direção: Rafael Romero Marchent

Roteiro: Joaquín Romero Marchent e Giovanni Scolaro

Produção: Berto Solino

Ano: 1969

Elenco: Anthony Steffen, Peter Lee Lawrence, Solvi Stubing...

Duração: 84 minutos

Apesar de se encher com falhas de sincronização, são aproveitados os recursos de produção para que se possa realizar uma interessante história.

Crítica: Garringo é um euro-western do ano de 1969, dirigido pelo espanhol Rafael Romero Marchent – famoso na Europa justamente por conta de suas produções para filmes do gênero, ao lado do irmão mais velho Joaquín Romero Marchent. Apesar de esta fita estrelada pelo astro ítalo-brasileiro Anthony Steffen contar com pouquíssimos recursos e muitos erros de tempo na edição, ela se compensa a partir de uma história um tanto quanto diferente e também nas boas atuações do elenco.

Iniciando através de um flashback do menino com nome Johnny (Peter Lee Lawrence) em cena, percebemos sua fuga de casa após seu pai – um antigo tenente – ser alvejado por um oficial do exército, o qual alegava que ele o havia traído. Johnny, então, é encontrado e adotado por Klaus (José Bodalo).

Desde criança, já demonstrando seu apreço por armas, adquire o desejo de aprender atirar e, portanto, Klaus cede aos vários pedidos do garoto, ensinando-o a usar um revolver. De volta para o presente, vemos Johnny adulto assassinando todo e qualquer soldado de farda azul, sem dar a mínima chance de defesa e, ainda por cima, avisando o exército pelas atrocidades cometidas por ele assinando o próprio nome.

Consequentemente, querendo vê-lo morto, o exército liberta o Tenente Garringo (Anthony Steffen) da cadeia, sendo que ele era visto pelo Coronel como “o único homem que pode capturar Johnny”. A jornada para a prisão do assassino é longa, sendo que este ainda volta para casa com o objetivo de rever o pai adotivo e também Julie (Solvi Stubing) – filha de Klaus que cresceu ao lado de Johnny.

Fugindo de alguns clichês comuns do western, o filme consegue dar algumas enganadas no espectador, primeiramente ao mostrar o flashback de Johnny e logo após mostrá-lo como um adulto matando vários soldados, fazendo com que se crie uma ilusão nos espectadores de que ele é o protagonista (algo que é rapidamente descartado com a apresentação de Garringo). Outro clichê quebrado é a inexistência de enfrentamento entre o “bem e o mal”, criando um duelo mais psicológico na mente de quem assiste.

Dentro do elenco composto por um dos ícones do western spaghetti, Anthony Steffen, a atuação da dupla principal se mantém em um patamar considerável; a mágica atuação do austríaco Peter Lawrence é marcada por este deixar de lado a cara de bonzinho e aderir a uma figura de extrema maldade. A direção, junto com a edição, é falha, tendo inúmeros erros de tempo – sobretudo nas cenas de ação. Outra técnica utilizada por Rafael Romero Marchent é que ele faz um jogo de imagens para não mostrar tanta violência, como acontecia de maneira exagerada nos faroestes norte-americanos devido à lei que rondava as bandas do cinema hollywoodiano na época.

Por último, Garringo ainda possui uma bela trilha sonora composta por Marcello Giombini e uma ótima exploração de paisagens, a qual fica nas mãos do diretor de fotografia, Bruno Bolognesi. Quanto à utilização dos flashbacks em seu começo, apesar de parecer comum hoje em dia, a técnica é explorada a partir de uma textura estranha nas laterais da imagem, sendo que elas ficam borradas para mostrar que são lembranças.

MINHA NOTA PARA ESTE FILME:

ANÁLISE FEITA POR THIERRY VASQUES.

18 de fevereiro de 2012

Crítica: Barbarosa

BARBAROSA

Direção: Fred Schepisi

Roteiro: William D. Wittliff

Produção: Paul Lazarus III

Ano: 1983

Elenco: Willie Nelson, Gary Busey, Isela Vega...

Duração: 90 minutos

Em plena década de fracassos no western, surge Barbarosa na tentativa de reerguer o antes muito respeitável gênero.

Análise: Barbarosa é um faroeste norte-americano lançado no ano de 1982 ao lado de outros filmes do mesmo patamar, com o objetivo de tentar reabilitar o gênero que vinha em uma série de fracassos a partir do épico e derradeiro O Portal do Paraíso (Michael Cimino, 1980). Porém, mesmo caindo no esquecimento, o filme do diretor Fred Schepisi acaba passando por um completo extremismo através de seus nomes: enquanto seu elenco apresenta alguns atores reconhecidos – como o ícone da musica country Willie Nelson e o ator nomeado ao Oscar em 1975, Gary Busey – a produção nem sequer relaciona alguém com determinada reputação cinematográfica.

Deveras diferente em relação aos clássicos westerns estadunidenses, Barbarosa se foca mais na relação entre o mestre e o aprendiz (como no italiano O Dia da Ira) e nas cenas de violência, ao invés do romance e das cenas de cunho heroico.

Barbarosa (Willie Nelson) mostra a vida de um temido pistoleiro que vaga por territórios mexicanos e acaba encontrando Karl Westove (Gary Busey), um jovem fazendeiro do Texas que está fugindo no meio do escaldante deserto depois de ter matado sem querer o seu irmão. Barbarosa, então com pena do pobre rapaz, ensina-o a encontrar água e a caçar tatu, mas o abandona na noite. Ao acordar, Karl tenta retomar sua vida normal, mas é visto pelos irmãos em um vilarejo; a pedido do pai com sede de vingança, tentam matá-lo e é salvo por Barbarosa. É a partir daí que o vinculo entre os dois fica cada vez mais forte, envolvendo em inúmeras aventuras e algumas discussões.

A direção, de Fred Schepisi, sabe aproveitar muito bem a paisagem e também planos presentes em westerns anteriores, inclusive alguns reconhecidos de Sergio Leone. Os planos detalhes também dão às caras e adentram profundamente ao filme, dando ares mais característicos ao trabalho de Schepisi. Outro dos elementos mais bem prestados pelo diretor é a forte relação entre o mentor e o principiante, mostrado no início como uma simples amizade entre Barbarosa e Karl, porém aumentando tal sentimento ao decorrer do filme.

Concluindo, Barbarosa é um bom filme, porém não tão grandioso se compararmos com os grandes clássicos do gênero. Apresenta uma interessante direção, uma cativante história e razoáveis atuações.

MINHA NOTA PARA ESTE FILME:

ANÁLISE FEITA POR THIERRY VASQUES.

11 de fevereiro de 2012

SESSÃO DE CURTAS: L’Ultimo Pistolero, The Rider e Little Tombstone.

L’ULTIMO PISTOLERO

Direção: Alessandro Dominici

Roteiro: Sebastiano Ruiz Mignone

Produção: Claudio Bronzo

Ano: 2002

Duração: 8 minutos

Primordial ator do western spaghetti é retratado através de uma fotografia quase inexistente no gênero: o preto-e-branco.

Análise: Talvez um dos maiores atributos de diretores do cinema italiano seja sua categoria em realizar enquadramentos fantásticos, tendo uma visão que só eles próprios conseguem ter daquilo que está preparado em cenário. Portanto, em L’Ultimo Pistolero, de Alessandro Dominici, tal fundamento é captado com exatidão por seu realizador: apesar de seus planos serem desprovidos de um propósito narrativo, são gravados de acordo com um nível estético, confortando também a dominante fotografia, do mesmo Dominici.

E, prestando homenagem ao western spaghetti, não poderiam faltar referências aos maiores filmes e personalidades do gênero, o qual foi responsável por atuar dentro de países europeus como Itália, Espanha, Alemanha, França e Portugal. Assim, o grau de detalhes – desde os olhos verdes de Nero até a fumaça de seu cigarro – relembra principalmente Sergio Leone. Já os travellings de câmera não poderiam funcionar melhor, assim como acontece em trabalhos de Sergio Corbucci (como Compañeros) ou de Enzo G. Castellari (como Keoma). Voltando a Leone, porém, os efeitos sonoros também não poderiam ser mais deslumbrantes!

Então, como uma lembrança de Sam Peckinpah e seus mais diversos faroestes crepusculares, o que mais chama a atenção mesmo em L’Ultimo Pistolero é a ilustre presença de Franco Nero e de Ennio Morricone – ambos de grande importância para o eurowestern. Na trilha de Morricone, aliás, é até possível perceber uma das faixas criadas para o primeiro faroeste italiano: Por um Punhado de Dólares (Sergio Leone, 1964).

NOTA:

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THE RIDER

Direção e Roteiro: Josh Brooks

Produção: Emily Brooks

Ano: 2011

Elenco: Jesse Johnston, Amber Goulding, Lyn Tripp, Ryan Wickland e Isaac Johnston

Duração: 7 minutos

Gravado em plataforma celular, roteiro é ocultado para que sua estética adentre em primeiro plano.

Análise: Classificado como “finalista” do festival Nokia Shorts, o curta-metragem The Rider teve seu desenvolvimento através das lentes do celular Nokia N8 e, apesar disto, apresenta uma qualidade de imagem de deixar inveja em qualquer outra câmera. Escrito e dirigido por Josh Brooks e com produção de sua esposa Emily Brooks, o casal trabalha junto para criar uma atmosfera de pura seriedade e magnificência através de um western.

Montana, 1900. Um cavaleiro solitário (Jesse Johnston) cavalga sem um rumo decidido por dentre o oeste, até encontrar uma dependência abandonada. Com certo sentimento de culpa, ele pretende liquidar sua existência ali, naquele exato momento. Entretanto, ao encontrar uma nova perspectiva de redenção, suas cinzas dão forma novamente ao Cavaleiro Solitário.

Além de ser creditado pelo roteiro e direção, Josh também assina a fotografia: as cenas internas utilizam-se de muitos elementos que acabam distorcendo a imagem, adquirindo um ar deveras artificial e forçado. Isto faz com que o interesse do filme se vire mais para a estética e não para o roteiro, sendo que este também contém falhas, como um desenvolvimento impontual, deixando brechas e perguntas a serem respondidas: “por que ele quer se matar?”, “será que seu passado foi obscuro, assim como o de muitos outros?”. Apesar de tais falhas, ainda há acertos ao tentar remeter falas clássicas, como de Era uma Vez no Oeste (Sergio Leone, 1968).

NOTA:

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LITTLE TOMBSTONE

Realizado por: Frederic Azaïs, Theo di Malta, Benjamin Leymonerie e Adrien Quillet

Ano: 2011

Duração: 5 minutos

De uma beleza gráfica e técnica incomparáveis, estereótipos do velho-oeste americano são personalizados por discípulos franceses.

Análise: Ao todo, quatro personagens dividem a mágica tela de Little Tombstone: os típicos mocinho e bandido, um suposto padre e um índio bêbado. O duelo ao meio da cidade entre “O Bom” e “O Mau” dá belos tons ao filme, impondo informações extras e acrescentando tensão para a parte final.

A qualidade gráfica rasteja em direção ao primor, fazendo com que as comparações com Rango (Gore Verbinski, 2011) não possam faltar. Além deste filme, muitos outros também ganham suas homenagens, principalmente os de Sergio Leone: Três Homens em Conflito (1966) e Era uma vez no Oeste (1968) são os mais referenciados por Little Tombstone.

A sonoridade do filme é elementar: desde uma trilha sonora bem trabalhada por Alexandre Scuri, até ruídos executados por toda e qualquer ação dos personagens em tela. Contudo, mesmo se destacando profundamente em outras áreas, é o roteiro quem ganha maior ênfase na ficha técnica: imprevisível, ele guarda uma surpresa final de deixar o queixo caído.

Em português, a tradução para “Little Tombstone” seria de “Pequena Sepultura”. Porém, me perdoem, pois eu prefiro chamar este curta-metragem de “Beirando a Perfeição”.

NOTA:

Comentários por Bruno Barrenha.