21 de julho de 2012

Especial | Dia do Amigo

Nós, do ANALISANDO O OESTE, em comemoração ao Dia do Amigo (20/07), realizamos uma lista com alguns dos imemoráveis companheiros que cavalgaram lado-a-lado pelas bandas cinematográficas do Oeste. Aí vão:

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A dramática e emocionante trajetória dos inseparáveis Shane (Alan Ladd) e do garotinho Joey Starrett (Brandon De Wilde) culminou em um extremo sucesso de Os Brutos Também Amam (George Stevens, 1954), gerando alcunhas controversas do tipo: “o melhor faroeste já feito”.

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Apesar da fotografia nada amistosa, a estória narrada através de flashbacks em O Homem que Matou o Facínora (John Ford, 1962), por Ransom Stoddard (James Stewart) relembra os momentos preciosos que teve ao lado do companheiro Tom Doniphon (John Wayne).

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Já confundido com um padre, o Coronel Douglas Mortimer (Lee Van Cleef) foi apresentado ao caçador-de-recompensa – e futuro companheiro de profissão – Monco (Clint Eastwood) da maneira mais improvável e genial possível: a cena dos “chapéus voadores” acaba tornando-se uma das melhores de Por uns Dólares a Mais (Sergio Leone, 1965).

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O monossilábico Django (Franco Nero) atravessa todo o característico território lamacento carregando um caixão. Ironicamente, este é o que acaba ficando de mistério para o filme e, consequentemente, tornando-se o seu melhor amigo em Django (Sergio Corbucci, 1966).

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O espetacular jogo entre gato-e-rato armado mutuamente, ora por Tuco (Eli Wallach) ora por Blondie (Clint Eastwood), em Três Homens em Conflito (Sergio Leone, 1966) é o que faz não só da dupla, mas também deste faroeste indescritível, um dos maiores da arte cinematográfica.

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Paul Newman é Butch Cassidy, enquanto Robert Redford toma conta do papel de Sundance Kid. Resumindo, uma das duplas mais impagáveis da sétima-arte imprime, sem mais nem menos, a história de dois lendários foras-da-lei nos fotogramas de Butch Cassidy & Sundance Kid (George Roy Hill, 1969).

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Pais do faroeste cômico, Bud Spencer e Terence Hill eram inseparáveis e, fisicamente, uma espécie de O Gordo e O Magro. Ambos ganharam espaço na indústria cinematográfica com a criação do personagem Trinity (interpretado por Hill), o qual sempre era acompanhado pelo parceiro Bambino (Spencer). O primeiro filme de uma série deles foi Trinity é o meu Nome (Enzo Barboni, 1970).

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Mr. McCabe (Warren Beatty) e Mrs. Miller (Julie Christie) se dão como marido e mulher, porém não passam de parceiros de negócio no amargo faroeste Quando os Homens São Homens (Robert Altman, 1971).

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Mais uma das lendas do sombrio oeste americano, estes dois antigos companheiros de farra se separaram depois de Pat Garrett (James Coburn) tornar-se agente da lei, impondo uma constante caçada a Billy The Kid (Kris Kristofferson), um dos mais perigosos e famosos bandidos que vieram a calhar – e, por ser tão conhecido, Pat escreveu um livro sobre suas aventuras, seja juntos ou não. Apesar das inúmeras adaptações ao cinema, a mais incontestável é Pat Garrett & Billy The Kid (Sam Peckinpah, 1973), na qual o que não falta é sangue e muita genialidade por parte de seu diretor.

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Ela está no título do filme, o enredo gira a sua volta, é a mais procurada de toda a região, porém tem seu rosto revelado apenas em alguns segundos da projeção. Falo da cabeça de Alfredo García, que demonstra o melhor do companheirismo para com o personagem Bennie (Warren Oates) – este até a lava, ensaboa, espanta os mosquitos; é inevitável, também, que converse com ela. Portanto, Tragam-me a Cabeça de Alfredo García (Sam Peckinpah, 1974) é um grato exemplo de amizade entre a busca pelo dinheiro e o sofrimento na caminhada.

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Com o desejo de voltar às atividades para caçar um grupo que esfaqueou prostitutas da cidade, o já desgastado William Munny (Eastwood) e o parceiro de longa data Ned Logan (Morgan Freeman) tem pela frente a velhice como maior inimigo. Sem delongas, partirão para a glória ou para a derrota na obra-prima Os Imperdoáveis (Clint Eastwood, 1992).

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Desolado pelas três não lineares perdas do amigo Melquíades Estrada (vivido por Julio Cedillo), o rancheiro Peter Perkins (Tommy Lee Jones) parte em busca daquele que seria o responsável por tal fato, encontrando em Mike Norton (Barry Pepper) um culpado. Demonstrando o devido carinho ao companheiro, carrega o defunto para onde vai, fazendo de Três Enterros (Tommy Lee Jones, 2005) um dos melhores westerns modernos.

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A amizade da dupla Everett Hitch (Viggo Mortensen) e Virgil Cole (Ed Harris) é reportada mediante um prelúdio, no qual se diz sobre “manter a paz”, sobretudo ao avistarem a cidade sem lei de Appaloosa. Lá, eles fariam o mesmo, mas, obviamente, confrontando-se com outras questões. Entre elas, estaria a presença do espírito feminino, que divide os companheiros no faroeste Appaloosa – Uma Cidade Sem Lei (Ed Harris, 2008).

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Para a garotinha Mattie Ross (Hailee Steinfeld), o xerife caolho e beberrão Rooster Cogburn (Jeff Bridges) era um homem de “bravura indômita”. Ela queria a ajuda do mesmo para vingar a morte de seu pai. Em Bravura Indômita (Joel e Ethan Coen, 2010), a amizade estabelecida por eles é muito mais que isso, estando comprovado por meio da simbólica cena da cobra, em que Rooster chupa o veneno da mão da menina.

THE END.

20 de julho de 2012

Pôster | O Último Pistoleiro

THE SHOOTIST

Direção: Don Siegel

Roteiro: Scott Hale e Miles Hood Swarthout

Elenco: John Wayne, Lauren Bacall, Ron Howard...

Ano: 1976

Duração: 100 minutos

John Wayne dá adeus ao cinema em uma ode ao gênero que o relevou.

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Para ler a crítica, escrita por Thierry Vasques, é só clicar aqui.

19 de julho de 2012

Crítica | O Último Pistoleiro

THE SHOOTIST

(O ÚLTIMO PISTOLEIRO)

Direção: Don Siegel

Roteiro: Scott Hale e Miles Hood Swarthout

Elenco: John Wayne, Lauren Bacall, Ron Howard...

Ano: 1976

Duração: 100 minutos

John Wayne dá adeus ao cinema em uma ode ao gênero que o relevou.

Análise: O Último Pistoleiro não é só um ótimo faroeste norte-americano, como também a triste despedida de um dos grandes ícones do gênero, John Wayne, que morreu em 1979 – três anos após a realização do projeto. A película serve para mostrar um fora-da-lei do oeste de forma diferenciada: um pistoleiro já velho e vivendo os seus derradeiros dias de vida, por estar com câncer – doença esta que, ironicamente, foi a responsável por definhar Wayne na vida real.

Adaptação do livro homônimo de 1975, escrito por Glendon Swarthout, o roteiro do filme é escrito justamente pelo filho deste em conjunto com um companheiro.

Repetindo a dose de O Homem que Matou o Facínora (John Ford, 1962), temos aqui um Wayne e Stewart bem mais idosos, porém não menos geniais.

O Último Pistoleiro inicia de forma emocionante, com um conjunto de imagens de antigos filmes de John Wayne, servindo como uma introdução ao passado de um famoso pistoleiro: John Bernard Books (Wayne) que, em 1901, vai para Carson City visitar o antigo amigo e médico E.W Hostetler (James Stewart), para confirmar as suspeitas de que estava com câncer. Hostetler confirma a doença “incurável” e, então, o pistoleiro aluga um quarto na pousada de Bond Rogers (Lauren Bacall) com o intuito de passar os últimos dias de vida tranquilamente; entretanto, sua presença vira notícia pela região e atraem interesseiros e inimigos, os quais J.B Books decide confrontar no dia de seu último aniversário, sabendo que aqueles seriam seus últimos tiros.

Tanto Wayne quanto Lauren Bacall interpretaram muito bem seus personagens, até por terem sofrido direta ou indiretamente com o câncer. Inicialmente, o papel principal ficaria com George C. Scott, mas este cedeu ao astro rei dos faroestes que pediu o papel e, mesmo com problemas de saúde, ganhou-o. Sua escolha foi um grande acerto da produção (liderada por William Self e M.J. Frankovich), pois consegue construir de forma real e emotiva o personagem, aproveitando a decadência de seu estado após o aparecimento de um câncer de pulmão em 1964. Algo semelhante aconteceu com Bacall, em 1957, quando perdeu o marido, Humphrey Bogart, devido à mesma doença, porém na garganta. Com a inteligência da produção, o contrato de tais personalidades ajuda na construção dos respectivos personagens.

O filme mostra pessoas insensíveis e que querem se aproveitar da fama das outras, as quais se aproximam do próprio juízo final. Exemplos de tal é o delegado Walter J. Thibido (Harry Morgan) que, ao saber que Books está perto da morte, ri por não precisar enfrentar o adversário; o repórter, Dan Dobkins (Rick Lenz), querendo fazer sucesso por escrever um livro narrando as aventuras de Books; o agente funerário Hezekiah Sweeney (John Carradine), que oferece um ótimo plano de embalsamento (e Books o rejeita) por saber que iriam expor seu corpo para visitas, em troca de dinheiro; o cabeleireiro, que parece bondoso ao cortar o cabelo de Books gratuitamente, mas logo depois recolhe-o todo para vende-lo; por fim, uma antiga amada de Books, Serepta (Sheree North), que queria se casar para ficar com os bens e também com o sobrenome do famoso pistoleiro, somente para fazer sucesso.

Já na parte final, Books pensa em uma forma mais honrosa de morrer, marcando um encontro com três antigos inimigos em um saloon e já prevendo o resultado final, pois carrega duas pistolas com seis balas cada – anteriormente, ele mostra que em casos normais deixa uma das câmaras do tambor do revolver sem bala para não atirar por acidente. Assim, ele mata todos os três, um de cada vez, mas fica claro que a doença está o afetando e que os tempos estão mudando, acabando por levar vários tiros, mas apenas morre quando leva um tiro do barman pelas costas. Gillom Rogers (Ron Howard), filho de Bond e grande admirador de Books, mata o responsável pela morte do ídolo e joga sua arma para longe, deixando claro sua vontade de não se envolver e nem seguir os mesmos passos foras-da-lei de Books.

O consagrado diretor Don Siegel faz de O Último Pistoleiro um ótimo faroeste, demonstrando os tempos finais de um pistoleiro e também as mudanças ocorridas em um país retratado por muitos trabalhos do gênero como “ausente de leis”, idealizando uma modernização em que os velhos caubóis não tinham mais espaço. Fora, ainda, sobre o perigo do câncer, doença sujeita a atacar qualquer pessoa, até mesmo um famoso e durão pistoleiro, forte como um touro e valente como John Wayne.

MINHA NOTA:

POR THIERRY VASQUES.

16 de julho de 2012

Pôster | A Quadrilha Maldita

DAY OF THE OUTLAW

Direção: André De Toth

Roteiro: Philip Yordan

Elenco: Robert Ryan, Burl Ives, Tina Louise...

Ano: 1959

Duração: 92 minutos

Deslumbrante vazio branco dá tons negros à obra-prima de De Toth.

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Leia a crítica completa desta obra-prima obscura do faroeste estadunidense, por Bruno Barrenha.

14 de julho de 2012

Crítica | A Quadrilha Maldita

DAY OF THE OUTLAW

(A QUADRILHA MALDITA)

Direção: André De Toth

Roteiro: Philip Yordan

Elenco: Robert Ryan, Burl Ives, Tina Louise...

Ano: 1959

Duração: 92 minutos

Deslumbrante vazio branco dá tons negros à obra-prima de De Toth.

Análise: Nada de desertos arenosos, nem mesmo do insuportável calor que carrega consigo. Nada de peles-vermelhas, nem de conflitos que cheguem perto dos tais. Nada de diligências, de humor, de politicamente correto, de mocinhos e bandidos, de pureza... O que realmente assistimos neste (baita) faroeste do diretor húngaro – e caolho, vale a curiosidade – André De Toth são sequelas pra lá de arrepiantes e, ainda por cima, muito destemidas.

Para provar o atrevimento do projeto, em primeiro lugar, dispara a fuga para uma narrativa que tem, como um de seus pilares de apoio, o meio-ambiente gélido, tempestuoso, invernal e muitos outros adjetivos relacionados ao frio, o que já não é de muita frequência ao gênero, visto que este se delineou em bases sólidas e de difícil câmbio. Todavia, para o filme em questão, a presença de um descampado onde somente se enxerga a brancura da neve e do gelo não serve única e especificamente para a beleza estética e visual do projeto, porém mais para interligar-se direto aos interiores dos personagens: secos, apáticos e indiferentes, assim como a tocante paisagem. Mais a fundo, a predileção por um contraste muito ostentativo entre o preto e o branco também se relaciona com a personalidade daquelas interpretações, mas, desta vez, fazendo jus às suas dualidades – como exemplo, temos Helen Crane (Tina Louise) que, apesar de casada com Hal (Alan Marshal), pode recorrer a Blaise Starrett (Robert Ryan); ou com o caso de Gene (David Nelson), o qual faz parte da gangue que toma a cidade e, ao mesmo tempo, revela-se em um amor teoricamente proibido com Ernine (Venetia Stevenson).

Adaptado da estória de Lee E. Wells, a projeção dá o pontapé inicial através de um plano geral de prolongada duração, em que o forasteiro Starrett e seu capataz Dan (Nehemiah Persoff) cavalgam arduamente por entre toda aquela neve que assola a região, imprimindo nela uma alvura límpida e poderosa. E potente como o branco de fervilhar os olhos daquele pacato vilarejo, só mesmo a quadrilha maldita do velho capitão do Exército, Jack Bruhn (Burl Ives). O grande roubo do qual ele e seus capangas foge traz a atenção das autoridades do país, que, apesar da falta da presença física, mostram-se ásperos e muito temidos, respondendo aos ataques com violência (o tiro no peito de Bruhn).

“Você está morrendo, Bruhn. Está interessado? Como quer morrer? Você é um homem, não um animal. Pode sair daqui comigo e morrer dignamente, ou pode soltar seus homens na cidade, e morrer no lodo como um porco.”

Como este é o último ponto de parada dos saqueadores, pelo fato de que dali à frente só existe montanhas, eles resolvem fazer dos caubóis e rancheiros – dois grupos que conviviam em constantes disputas, às vezes só resolvidas pelo bom e velho showdown – seus subordinados. Enquanto a maioria da população só demonstra preocupação pela possibilidade de haver no povoado um massacre, é Starrett quem dá o braço a torcer e tenta evitá-lo; neste ponto, os cidadãos deverão esquecer-se das desavenças e unir forças. Sob a chefia de um enfermo Bruhn, alguns dos renegados acatam às suas ordens (como não beber e nem se “divertirem” com as mulheres) e outros tentam burlá-las, sem sucesso. Contudo, o que eles conseguem garantir – até com certa folga – é a opressão; dos maridos, sobretudo, os quais têm suas mulheres arrancadas para que elas dancem sórdida e humilhantemente com os novos “patrões” daquele lugar.

De aspectos interessantes em um roteiro tão bem escrito como tal, por Philip Yordan, pode-se notar a presença secundária do personagem de nome Pace (Lance Fuller), que significa “paz” em italiano e, partindo contrariamente ao sentido exposto, ele adora machucar (ou deveria dizer matar?) os seres, como o próprio Bruhn especificou em sua primeira aparição. Além disto, a escrita dos diálogos se dá criteriosa (para acertar em cheio movimentos da época, como a repressão e a guerra) e com uma poesia rude, tornando-os a principal arma de ataque para colidir de frente com os espectadores.

“É curioso como uma guerra muda a vida de um homem. Poderia ter ordenado a retirada, mas dava a ordem de ‘fogo’. Em West Point, decidi ser só soldado, sem que ficasse lugar para o ser-humano. Obrigado.”

A direção de De Toth é mais uma vez digna de aplausos, sendo mais eficiente até mesmo no controle de seus atores e resultando em uma perfeita harmonia. Contudo, muito além, o que mais se pode tirar deste trabalho do realizador é a forte inovação a que lidou com o suspense, agravando a tensão a todo minuto e arrancando pontos densos dos extremos nos quais roda a película. Já com seu ápice assegurado, De Toth continua o soberbo trabalho por meio do psicológico: ele faz uma simples discussão parecer mais do que isso, algo próximo de uma “batalha falada”. Sem dizer de seus planos sempre sugestivos, que mais se retratam na cena de operação de Bruhn, em um close salientando o sofrimento do tipo, ao mesmo instante em que faz sua observação à guerra.

A trilha sonora é de Alexander Courage, e talvez nunca um western norte-americano tenha ouvido uma somatória de melodias tão próximas às do spaghetti, como tal. O ritmo de tensão conjugado pelo diretor só é melhorado com as faixas de Courage, que se deixam ausentes por alguns momentos, mas naqueles mais importantes, estão sempre à disposição.

Por fim, a fotografia de Russell Harlan é um dos elementos mais chamativos de todo o ciclo. Sublime e deveras contemplativa, a preferência pelo preto-e-branco enquadrou-se para contrastar e refletir nas personalidades – como dito no início da resenha. Ela convém também para complementar uma direção de arte afiada, de Jack Poplin.

Abastecido por um final arrasador e cru (relato-o em aspecto positivo), em A Quadrilha Maldita aprendemos uma verdadeira e proficiente lição sobre a ganância dos seres-humanos: aqueles que mais querem, menos têm. As mortes dos integrantes da quadrilha se dão por eles mesmos, assassinando-se aos poucos, lentamente. Eles entraram juntos naquele assalto, porém não querem sair desta mesma maneira; estão cada vez mais famintos pelo dinheiro, e não pelos amigos, nem mesmo pelos animais que serviriam minimamente como veículos de fuga. Terminamos, portanto, com uma crítica mais atual que nunca.

MINHA NOTA:

POR BRUNO BARRENHA.

9 de julho de 2012

Pôster | Tepepa

TEPEPA

Direção: Giulio Petroni

Roteiro: Ivan Della Mea e Franco Solinas

Elenco: Tomas Milian, Orson Welles, John Steiner...

Ano: 1969

Duração: 136 minutos

Como ingredientes para seu preparo, mistura-se o tempero de Welles e de Milian para dar o devido gosto a um espaguete de sabor crítico.

Crítica deste grande clássico do eurowestern, por Bruno Barrenha.

8 de julho de 2012

Give ‘em hell.

(1917-2012)

Ele teve de partir, infelizmente. Talvez estivesse em sua hora. De certo, o que podemos garantir é que suas maiores proezas nunca serão esquecidas, pois ele estará respirando continuamente na memória das lentes cinematográficas. Assim, despedimo-nos hoje, em um triste domingo de julho, de Ermes Effron Borgnino – mais famoso pelo nome de Ernest Borgnine.

O sempre carismático ator nasceu em 24 de janeiro do ano de 1917, em Hamden, estado de Connecticut, filho de imigrantes italianos. Antes de acomodar-se na arte da atuação – na qual incluem trabalhos para a televisão, teatro e cinema –, Ernie passou dez anos na Marinha e ainda participou da Segunda Guerra Mundial. Estreou na Broadway em 1949, com 32 anos e, seis primaveras depois, ele já vencia seu primeiro e único Oscar, pelo filme Marty (dirigido por Delbert Mann).

No decorrer do tempo, a popularidade de Borgnine só aumentava, passando a estrelar sucessos de crítica e de comércio. Atualmente, são projetos glorificados e obrigatórios para qualquer um que deseja seguir carreira na área cinematográfica, como A Um Passo da Eternidade (Fred Zinnemann, 1953), Johnny Guitar (Nicholas Ray, 1954), Os Doze Condenados (Robert Aldrich, 1967), Fuga de Nova York (John Carpenter, 1981) etc. Entretanto, além de marcar presença nas grandes telas, também era astro na televisão americana, atuando em séries como a comédia McHale’s Navy (1962-66), na qual interpretava quase que ele mesmo, por ser o papel de um marinheiro.

Dentre os diretores com quem mais trabalhou, estão Sam Peckinpah e Robert Aldrich. Com o primeiro, foi responsável por colidir de frente com os estúdios e chocar os espectadores na obra-prima do faroeste Meu Ódio Será sua Herança (1969); já com o segundo, realizou uma coleção de variados filmes, que envolve Vera Cruz (1954), O Vôo da Fenix (1965), O Imperador do Norte (1973), e outros.

Antes de falecer, com 95 anos, Borgnine continuava em atividade. Seus trabalhos mais recentes são o desenho Bob Esponja (dublando o Homem-Sereia), a adaptação do quadrinho Red – Aposentados e Perigosos (Robert Schwentke, 2010), e o faroeste The Man Who Shook The Hand of Vicente Fernandez, do diretor Elia Petridis – já finalizado, para este ano.

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Aqui estão prestadas não só nossas condolências, porém as de todos os devotos da sétima-arte.

Give ‘em Hell...

... E descanse em paz, Ernie!

7 de julho de 2012

Crítica | Tepepa

TEPEPA

Direção: Giulio Petroni

Roteiro: Ivan Della Mea e Franco Solinas

Elenco: Tomas Milian, Orson Welles, John Steiner...

Ano: 1969

Duração: 136 minutos

Como ingredientes para seu preparo, mistura-se o tempero de Welles e de Milian para dar o devido gosto a um espaguete de sabor crítico.

Análise: Orson Welles é norte-americano e um dos ícones máximos da sétima-arte. Tomas Milian é nascido em Cuba e um ator de excessivo feitio artístico. Para completar a triagem das personalidades que fazem de Tepepa um dos faroestes mais esplêndidos (e críticos) da Europa, há a presença de John Steiner – inglês e o menos conhecido dentre os anteriores.

Welles, o primeiro referido acima, será para sempre lembrado como Charles Foster Kane (de Cidadão Kane, 1941) e, em cima do próprio, também contará com a reputação de ter realizado “o melhor filme do cinema”. Assim, a demonstração da alta influência causada por ele nesta produção consiste logo no início, quando tem seu nome aparecendo em primeiro lugar nos créditos, à frente até mesmo do próprio título do filme. Fatalmente, ter um cineasta de tamanho escalão em um gênero que, na época, muitos repeliam era, possivelmente, uma prova de crescimento do dito cujo. No entanto, nada foi de muito proveito e benefício ao western spaghetti, pois o gênero teve seu encerramento pouco tempo depois e, segundo o diretor Giulio Petroni, o clima nas gravações era terrível devido aos insultos proferidos por Welles a Milian, o qual reverenciava o experiente “companheiro”. De qualquer jeito, apesar das inúmeras diferenças e desentendimentos entre eles, cada qual dos atores se assemelha no que diz respeito à habilidade de atuação e interpretação de seus respectivos personagens: de maneira sublime, marcam seus ápices assim como o revolucionário Tepepa marca os rostos de seus inimigos.

O uso da Revolução Mexicana como pano-de-fundo nos faroestes europeus é de uma natureza muito recorrente, responsável até por gerar um novo (sub)gênero, epigrafado como Zapata-Western. E todos os realizadores que passaram pelo assunto buscaram, de alguma forma, inserir duras críticas ao processo ditatorial que persistiu no México entre 1910 e 1920 – como fez Sergio Corbucci em Il Mercenario (1968) e Compañeros (1970), e Leone em Quando Explode a Vingança (1971). Estas são fitas bastante ousadas em relação ao discernimento apresentado, mas não chegam tão direto e reto ao ponto como faz Tepepa, de Petroni.

Prova de tal comprovação pode ser encontrada, entre outras partes, no estopim do filme: o carro – moderno para a época, digamos – do Doutor Henry Price (Steiner) tem alguns problemas e, para resolvê-los, recebe a ajuda dos trabalhadores pobres, que empurram seu veículo até este voltar ao normal; o socorro por eles prestado é um sinônimo de poder da classe menos favorecida, porém também significa a própria submissão pela obrigação que tinham. A partir de então, obtém-se um foco que diverge da visão sócio-político-econômica não só no tempo em que se passa o filme, mas também que se reflete nos dias de hoje ou de quando foi filmado, através de uma linguagem cada vez mais nova e consistente.

Posterior ao médico inglês, Price, avistamos o Coronel Cascorro (Welles): sangue frio e inclemente, ele é a amostra concreta de como um governo pode ser bem pior que qualquer outro tipo de revolucionário ou bandido – outra das críticas nitidamente impostas. Sem piedade e já em sua primeira aparição, Cascorro não hesita em sacar o revólver para assassinar um garoto que o insultara, causando o inconformismo de Price para com a situação na qual o país estava prestes a alcançar. Simultaneamente, o herói Tepepa (Milian) recebe o máximo de afeto da população por sua luta, já que estaria próximo de ser fuzilado. E, momentos antes de sua morte, na preparação dos soldados, um padre vai até ele com o intuito de oferecer uma dor pacífica, porém é rejeitado de forma cruel, em uma impactante imagem da cruz sendo menosprezada e ninguém sem mover um único músculo. Já quando é chegada sua hora, em instantes carregados de tensão pelos rufares dos tambores, o revolucionário é salvo pelo estrangeiro Price que, mesmo com tal ato, deseja matar Tepepa com suas próprias mãos.

Carregado de contratempos, os conflitos entre o trio vão ganhando elementos obscuros e que só poderão ser encontrados na mente do espectador, por sua atenção durante tudo que acontecera até então. Não é à toa que o roteiro, redigido a quatro mãos, por Della Mea e Solinas, acaba por se tornar o cume de todo o filme, criando situações inesperadas e um sutil desenvolvimento de personagens, além da inclusão de flashbacks e os fortes julgamentos contra a política, seja por ações ou pelas falas de efeito recheadas de acidez.

Os atores, responsáveis justamente pela interpretação sublime de tais falas, acabam por se dividir e a desarmonia entre o núcleo primário (formado pela elite, com Welles, Milian e Steiner) e o secundário (com o “chico” Luciano Casamonica, Ángel Ortiz, José Torres etc.) torna-se visível. O resultado final, entretanto, de jeito algum pode ter seu mérito perdido.

Atrás das câmeras, deparamo-nos com um Giulio Petroni em sua melhor fase, dois anos depois de realizar A Morte Anda a Cavalo, com o experiente Lee Van Cleef. A herança deixada por Leone aos diretores seguintes do spaghetti reflete claramente neste trabalho, no qual Petroni exacerba em closes e zooms dramáticos e, acima de tudo, explora engenhosamente as partes do script em que há a necessidade de expor uma queixa contra algo. Tudo isto em conjunto, aproxima Tepepa dos filmes do mestre que deu a expansão necessária ao gênero “americano por excelência” na Europa.

E, como não podia faltar, as faixas musicais são assinadas pelo maestro Ennio Morricone – sempre muito requisitado pelos realizadores do faroeste. Para não perder o costume, a composição parte de um trabalho de gênio e finaliza-se com um conteúdo rico e bastante intuitivo, denotando uma ambientação sofrível por onde passa os carros dos coronéis e também a lenta marcha da revolução em um país que repudia os menos favorecidos. Ao fim da obra, não tem como, é claro, esquecer-se do ritmo contagiante e marcante.

Tomas Milian em seu frame mais notório: “Terra e Liberdade”.

De um lado, é louvado como um Deus; de outro, odiado como o pior dos terroristas. A verdade é que Tepepa fez o que pôde para seu povo, e ganhou merecidamente o destino que lhe foi dado. Por parte, um cidadão justo e de conceitos ambíguos: renegava àqueles que roubavam, mas, de forma indireta, era o que ele próprio fazia. Durante sua grandiosa jornada, abrangente em todos os 136 minutos de projeção, engrandecemos nosso pensamento recebendo um pouco mais de genialidade através de um roteiro audacioso e uma direção fiel.

O resultado é forte e chocante, inegavelmente, com cenas difíceis de digerir e uma análise bem detalhada que engloba todo e qualquer tipo de selvageria: até a mulher entra no palco para sofrer com a violência, e é por isto que creditamos Tepepa como uma película atual e progressiva. Além da figura feminina, o suborno também tem seu lugar, e adentra em cenário quando o Doutor Price (que deveria ser uma figura exemplar) dá dinheiro para ser solto da prisão; seu pedido não só é atendido, como também agraciado pelo fato do mesmo poder dormir na casa (e com a esposa) do guarda que o liberou.

MINHA NOTA:

POR BRUNO BARRENHA.

6 de julho de 2012

Pôster | Galante e Sanguinário

3:10 TO YUMA

Direção: Delmer Daves

Roteiro: Halsted Welles

Elenco: Glenn Ford, Van Heflin, Felicia Farr…

Ano: 1957

Duração: 92 minutos

Com destaques variados, adaptação de famoso conto estadunidense torna-se obra valiosa e divide méritos entre a dupla de atores.

Leia a crítica completa, por parte de Thierry Vasques.

4 de julho de 2012

Crítica | Galante e Sanguinário

3:10 TO YUMA

(GALANTE E SANGUINÁRIO)

Direção: Delmer Daves

Roteiro: Halsted Welles

Elenco: Glenn Ford, Van Heflin, Felicia Farr…

Ano: 1957

Duração: 92 minutos

Com destaques variados, adaptação de famoso conto estadunidense torna-se obra valiosa e divide méritos entre a dupla de atores.

Análise: Galante e Sanguinário é um filme dirigido por Delmer Daves (o mesmo do excepcional Árvore dos Enforcados, de 1959) e é considerado um dos grandes clássicos do western norte-americano. O roteiro é de Halsted Welles, adaptado do conto homônimo de Elmore Leonard, este que teve muitas outras de suas obras transformadas para as telonas.

No período de comemoração pelos 50 anos do filme, em 2007, um remake hollywoodiano (dirigido por James Mangold, com Christian Bale e Russel Crowe) foi lançado, com o título no Brasil de Os Indomáveis. Apesar de considerado uma refilmagem, muitas diferenças podem ser notadas em relação ao original– algumas até importantes para o desenvolvimento da história.

Ben Wade (Glenn Ford, na foto) é um temido pistoleiro cujo bando assaltou uma diligência carregada de ouro e também os cavalos de Dan Evans (Van Heflin), o qual testemunhou o ato. Logo após, Wade é preso sozinho no pequenino povoado de Bisbee, enquanto Evans é motivado a conquistar 200 dólares para ter água em seu rancho, no Arizona, durante a seca.

Por tal motivo, o mesmo se candidata – e foi o único a fazê-lo – para levar o perigoso Ben até a cidade de Contention, onde pegariam o trem das 3h10min, para Yuma – é daí que vem o título do filme. No destino da dupla, o bando de Wade descobre e cerca o local para resgatar o chefe.

A trilha sonora, composta por George Duning, é de alto nível, criando um arco necessário de suspense no decorrer da projeção; destaque para a bela música tema, The 3:10 to Yuma, cantada por Frankie Laine.

O roteiro sabe desenvolver de forma bastante regular os personagens, até mesmo oferecendo os motivos de suas ações como respostas a diversos casos, como naquele em que Dan Evans continua sua jornada (mesmo com os outros desistindo) somente para ser bem visto entre os filhos. Os atores fazem um bom trabalho, dando vida para personagens marcantes e que mais tarde seriam retomados em outras películas.

Por fim, a fotografia em preto e branco dá os tons certos para um resultado final bem relevante, sendo muito bem feita, com nítidas imagens. Delmer Daves completa todo o ciclo com chave-de-ouro, na execução de uma ótima direção, com planos marcantes – destaque para aquele do trem indo embora, durante a chuva.

Igualmente a muitos trabalhos da época no cinema americano, o principal duelo de Galante e Sanguinário não está nas armas nem na selvageria, mas sim na cabeça dos personagens, em seus psicológicos. Durante grande parte do tempo, lidamos com uma tensão sem princípios de violência, como na cena em que Wade e Evans estão esperando em um quarto de hotel: o segundo deve ficar ouvindo provocações e propostas do primeiro, para deixá-lo fugir. Evans, no entanto, mostra-se incorruptível e não aceita o alto valor oferecido por Wade que, no fim, demonstra honra e facilita o trabalho do “companheiro”, mostrando isto através da cena realizada com o trem em movimento – na qual ele salva a vida de Dan, pois não gosta de ficar devendo favores aos outros. O sorriso como forma de cumprimento entre eles demonstra o respeito mútuo que existe em suas relações.

MINHA NOTA PARA ESTE FILME:

ANÁLISE FEITA POR THIERRY VASQUES.