15 de outubro de 2011

Crítica: Django

DJANGO

Direção: Sergio Corbucci

Roteiro: Bruno e Sergio Corbucci, José Gutierrez Maesso, Franco Rossetti e Piero Vivarelli

Produção: Manolo Bolognini e Sergio Corbucci

Ano: 1966

Elenco: Franco Nero, José Bódalo, Loredana Nusciak...

Duração: 87 minutos

Clássico dentro do submundo do western sustenta o gênero, mas também é responsável por apresentar grande superestimação de seu conteúdo!

Análise: Não há como negar que Django é um dos personagens mais marginalizados de toda a sétima-arte: foram cerca de 30 títulos com a alcunha do anti-herói vingador, sendo que 28 delas estiveram entre 1966 e 1987. Um grande número de filmes produzidos para um pequeno espaço de tempo! Dentre tais filmes na saga de Django, poucos obtiveram o sucesso esperado e um dos que conseguiram esta façanha foi justamente o “analisado” de hoje, no qual Franco Nero vive o papel responsável por lhe consagrar e estampar seu nome na história cinematográfica.

Partindo muito mais além, também é possível destacar a influência causada por Django em outros processos de produção: desde os atuais Sukiyaki Western Django e o ainda não lançado Django Unchained, o filme também colaborou – de forma negativa – para a criação da pornochanchada brasileira Um Pistoleiro Chamado Papaco, trabalho que tira todo o mérito do personagem criado pelo diretor Sergio e seu irmão roteirista, Bruno Corbucci.

Franco Nero na invenção de Django, seu maior personagem.

Um homem coberto por uma roupa preta e arrastando um caixão sob uma superfície lamacenta. Como assim? Não era para ser um western, senhor Corbucci? Espera aí... Mas isto é um western! Um dos maiores bang-bang à italiana, pra ser mais exato! Em Django também se apresenta o maior dom de Sergio Corbucci que é, inclusive, o de transformar o árido deserto de Almería em qualquer outra coisa que fosse, porém estaríamos cientes que ali estava sendo filmado um faroeste – e da melhor qualidade. O mesmo aconteceu em uma de suas maiores obras-primas: O Vingador Silencioso, de 1968, onde somos afetados visualmente por uma branquidão e alguns rastilhos no meio da neve, indicando serem os personagens. E, após esta breve introdução de Django e seu criador, o filme se inicia justamente como explicado acima; ao lado dele, a trajetória do anti-herói também se coloca nos radares dos mais diversos cineastas.

Além desta habilidade própria de Corbucci e sua equipe, outro dos mais importantes detalhes para compor um trabalho do cineasta é a fotografia: o responsável desta vez é Enzo Barboni, trabalhando em seu primeiro faroeste da maneira mais exata possível e deixando tudo às vistas do espectador. Assemelhando-se à fotografia, há a marcante trilha sonora do argentino Luis Enríquez Bacalov, posteriormente conhecido no mundo todo por seu trabalho como compositor de soundtracks para o gênero. Já no processo de roteirização de Django – apesar de um grande número de pessoas responsáveis por isto –, a escrita é um dos pontos mais fracos do filme, sobrecarregando todo o bando. Contudo, como o diretor, Corbucci desfruta de close-ups para estampar a imagem degradada de seu personagem, utilizando-se ainda da tensão em momentos necessários.

O que pouco se sabe a respeito de Django é a simplicidade na qual o projeto foi realizado; prova disto é a falta de sangue nas cenas onde mais precisariam do elemento. Depois disto, o famoso argumento chega a ser interessante e abissal, porém sem um processo criativo muito apurado: o anti-herói chega a uma aparente cidade-fantasma, envolvendo-se diretamente com os revolucionários mexicanos do General Hugo (José Bódalo) e com os intolerantes sulistas da Klu Klux Klan, comandados pelo Major Jackson (Eduardo Fajardo). Além disto, ainda sobra tempo para o despertar de uma paixão entre Django e a prostituta Maria (Loredana Nusciak).

A cena de abertura é impagável e difícil de ser esquecida, tornando-se o melhor instante do longa realizado com uma fonte escassa de dinheiro. É possível que a partir dela o filme ganhe mais emoção, criando inúmeras contradições em nossas cabeças: “Quem é ele? Onde está indo? Por que carrega um caixão? O que há dentro dele?”, etc... Apesar de tudo, elas nos são respondidas tão rapidamente que quase nem reparamos.

Primeiramente, Django não pode deixar de ser comparado ao anti-herói antecessor do spaghetti: o Homem Sem-Nome, de Sergio Leone. A maior ligação entre eles é o fato de que, em seus primeiros filmes, ambos chegam misteriosos e em busca de algum objetivo – seja o dinheiro ou a vingança – numa cidade envolvida por dois diferentes grupos que batalham entre si. Posteriormente, sabemos que tanto um quanto outro possui uma mistificação de caráter, sendo quase impossíveis de serem acertados em um eventual duelo. Mesmo com tais gotículas de plágio, Django se prevalece na arte de levantar mais perguntas mesmo sendo um sujeito calado. Entretanto, uma das partes mais esperadas do filme – a de revelar o que haveria dentro de seu caixão – é um tanto quanto sem graça e, pelo menos para minha pessoa, o resultado não surpreende; menos surpreendente ainda é o romance grotesco criado entre Django e Maria.

Por último e finalizando o filme, há o surpreendente e inesperado duelo no cemitério. Deixando a surpresa e a tensão de lado, vemos algo mal realizado, principalmente porque Django não era capaz nem de posicionar sua arma e muito menos de sair atirando como um doido, o que no fim acontece. Para tirar suas próprias provas, vejam o vídeo abaixo:

O impossível acontece: como alguém pode atirar tantas vezes e com tanta precisão sem conseguir sequer arrumar seu revólver momentos antes?

Sendo um dos filmes favoritos de Quentin Tarantino, estaria esperando uma completa obra-prima de Django. Infelizmente, tomou um gélido ar de superestimação em seu conteúdo, mesmo por ser um dos filmes que mais representam o gênero do western spaghetti, apresentando uma estupenda vingança, uma diabólica e sádica crueldade e, enfim, os sempre presentes símbolos religiosos. Olhando de muito distante e deixando passar suas muitas particularidades e falhas técnicas, o filme realmente merece ser redescoberto e ter atenção nos dias de hoje. Eu sei que muitos discordarão de minhas opiniões expostas aqui, mas o que ninguém pode negar é que o gênero do spaghetti está esculpido em Django assim como a técnica está em uma escultura de Michelangelo...

MINHA NOTA PARA ESTE FILME:

ANÁLISE FEITA POR BRUNO BARRENHA.

13 comentários:

  1. '' O impossível acontece: como alguém pode atirar tantas vezes e com tanta precisão sem conseguir sequer arrumar seu revólver momentos antes? ''

    Texto bem escrito, parabéns. Mas discordo de algumas coisas.

    E a respeito do trecho destacado: meu caro, verossimilhança é uma coisa que devemos deixar para o último plano, no cinema. É ficção, pow. É filme. Imagina só como seria se TODOS os filmes do mundo procurassem seguir piamente os detalhes da vida real... seria meio que sem graça, né?, e acho que não seria algo reconhecido como ''arte'', já que o principal objetivo da arte, em si, é dar ao artista a liberdade de criação. FIKDIK

    Espero que não me interprete mal.

    Abs!

    ResponderExcluir
  2. Concordo plenamente, Victor.

    O que me deixa intrigado é que podemos entrar no filme para imaginar a realidade. Fora esta coisa mística do personagem e da vida no oeste sem lei, tudo presente em Django pode se encontrar na vida real! Às vezes sequer chegamos a imaginar que aquilo é uma ficção, de tanto que nos envolvemos com o projeto...

    Baseando-se nisto, o problema encontrado por minha pessoa é que o personagem nem conseguia arrumar sua arma, entende?! Estava com a mão arrebentada e tudo mais. Porém, de repente ele arruma e mata todos... Soa como mágica em um filme que não era para soar.

    Abraços! Espero que alimentemos esta discussão.

    ResponderExcluir
  3. Bruno, sobre sua falta de surpresa ao Django tirar uma metralhadora do caixão, acho que seu erro é analisar o filme com os olhos de hoje,, onde tudo já foi copiado à exaustão. Imagine no impacto dessa cena na época?

    ResponderExcluir
  4. Penso que o Bond e o Victor tem muita razão no que dizem. É necessário colocar o filme na época em que foi lançado. Mesmo nos anos 80 quando o vi em VHS fiquei estupefacto com a cena do caixão. Hoje em dia é mais difícil sentir-se surpreendido com uma cena assim, é bem verdade. Eu próprio sinto falta desse efeito.

    Quanto à cena final dou-te muita razão, é irrealista q.b. mas acho que é algo normal no cinema dito B, e não esqueçamos que é isso mesmo que este filme é. Exageros destes foram replicados dezenas de vezes em produções ainda menos agraciadas pelos dinheiros europeus.

    Independentemente disso tudo acho a tua opinião muito válida. Espero que tenhas a oportunidade de assistir a mais filmes da saga Django, especialmente o "Preparati la bara" e que deixes por aqui a tua opinião.

    --
    Pedro Pereira

    http://por-um-punhado-de-euros.blogspot.com
    http://auto-cadaver.posterous.com
    http://filmesdemerda.tumblr.com

    ResponderExcluir
  5. Em suma concordo com Bond e Victor Ramos. Totalmente válidas as suas opiniões!

    O que não posso mudar é minha visão ao ver a cena da metralhadora, já que a observo nos dias de hoje e, como bem disse Bond, estamos acostumados com ela de tantas cópias! Com certeza o impacto causado por ela no ano de lançamento foi extremamente alto, porém não posso analisar com os olhos de antigamente.

    Agora deixo-lhes dois exemplos muito parecidos com essa discussão a respeito da metralhadora:

    1º Aposto que atualmente ninguém se assusta com a cena de um dos primeiros filmes do cinema, "A chegada do trem na estação", em que o trem passa ao lado da câmera.
    2º No mesmo sentido, ninguém se surpreende ao ver um pistoleiro atirando em direção à câmera no fim de um filme, como em "O Grande Roubo do Trem".

    Acredito que uma crítica deve haver, acima de tudo, o olhar atual, independente de quando o filme foi realizado.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Já ouvir falar em contexto?
      Se fosse assim filmes q foram mal vistos pela critica como varios do kubrick, do Hitchcock, o Magico de Oz, Blade Runner e muitos outros não teriam se tornado clássicos ou cults, esse sua noção é amadora ao extremo, grande parte dos criticos não sabem oq ue dizem ou são fantoches, é so ler e pesquisar sobres classicos q foram mal vistos pela critica, a critica geralmente perde a credibilidade depois de um prazo, pq não tem embasamento e reflete noções enraizadas/etc.
      Não é minha opinião é so ver com que freqüência isso aconteceu e acontece, seja no cinema na musica na literatura etc.
      O que vc disse é tua opinião, é so pesquisar oq falei q verá q não tem nexo algum. o gosto/paladar pessoal não é sinonimo de verdade/embasamento amigo.

      Excluir
  6. Os westers-spaghetti surgiram numa fase muito especial da História do Cinema e por isso é fundamental enquadrar tudo isso naquela época! Hoje o efeito surpresa de um filme já não existe porque a Internet revela tudo antes do filme estrear nas salas de cinema.
    DJANGO não tem "gotículas de plágio" do primeiro western de Leone mas sim "gotículas de inspiração" porque quem plagiou na realidade foi Leone, que usou YOJIMBO sem autorização de Kurosawa.
    Quanto ao tiroteio final no cemitério: o que acontece não é impossível, ou pelo menos em parte! É possível disparar a arma, já que o gatilho é pressionado na cruz e desde que a palma da mão acione o cão, o revólver dispara!
    Pode sim haver muitas dúvidas que consiga acertar o alvo...da mesma maneira que é patético acreditar que Clint Eastwood, a uma distância enorme, acerta na corda que Eli Wallach tem ao pescoço no final de IL BUONO IL BRUTTO IL CATTIVO.

    ResponderExcluir
  7. A minha citação a respeito das "gotículas de plágio" não foram ao primeiro western de Leone, mas sim do próprio Homem Sem-Nome. Se pararmos para pensar, ambos são muito semelhantes...

    Em relação ao plágio de Sergio Leone sobre Yojimbo, tudo foi movido com o intuito de gerar um novo gênero na era cinematográfica, e não simplesmente por realizar uma cópia barata de um filme japonês.

    O Duelo Final: realmente não é impossível, porém em grande parte sim. Franco Nero tinha sua mão destruída e como ela poderia "acionar o cão, disparando o revólver"?!

    Quanto a cena final de "Il buono, Il Brutto, Il Cattivo", o talento de Clint Eastwood ao acertar cordas já é mostrado durante todo o filme, e por isso creio que a cena final não fique tão inacreditável como a de Django.

    ResponderExcluir
  8. "Franco Nero tinha sua mão destruída e como ela poderia "acionar o cão, disparando o revólver"?!

    O cão é acionado com a PALMA DA MÃO. Django ficou com as mãos e dedos partidos mas não ficou maneta!

    "Quanto a cena final de "Il buono, Il Brutto, Il Cattivo", o talento de Clint Eastwood ao acertar cordas já é mostrado durante todo o filme".

    Uma coisa é acertar numa corda a 50 metros de distância (algo muito difícil na realidade), outra é acertar na corda a 1 km de distância (impossível com uma espingarda daquelas e impossível porque a corda não é visível a 1 km).

    ResponderExcluir
  9. Não tiro o mérito da cena final de Django, Emanuel. E mesmo ele não ficando MANETA, atirar de maneira desesperadora e com tanta precisão é deveras anormal... Comparando à de "Il Buono, Il Brutto, Il Cattivo", ambas são praticamente impossíveis de acontecer.

    O que quero dizer é que a do filme de Leone é menos irreal, já que estamos acostumados com Clint Eastwood atirando em cordas. Se ele estivesse a uma distância muito maior, não faria diferença, porque ele já realiza esta ação durante o filme e nos faz imprimir na cabeça que ele é capaz de fazer aquilo sem algum problema.

    ResponderExcluir
  10. Fala Bruno, passando aqui pra colocar um raciocínio em relação à veracidade das cenas. Vc fala da precisão de Eastwood de acertar cordas durante o filme. Então, vc explica que a distância não faria diferença. Bom, analisando a veracidade, quanto maior a distância de um alvo menor a precisão de mira e a velocidade de um projetil. O filme de Leone tem suas falhas, se formos analisar neste ponto de vista. Porém, estamos tratando de cinema e sua análise sobre Django tbm é válida.Gde abraço.

    ResponderExcluir
  11. Fala Bruno, passando aqui pra colocar um raciocínio em relação à veracidade das cenas. Vc fala da precisão de Eastwood de acertar cordas durante o filme. Então, vc explica que a distância não faria diferença. Bom, analisando a veracidade, quanto maior a distância de um alvo menor a precisão de mira e a velocidade de um projetil. O filme de Leone tem suas falhas, se formos analisar neste ponto de vista. Porém, estamos tratando de cinema e sua análise sobre Django tbm é válida.Gde abraço.

    ResponderExcluir
  12. O Franco Nero esta de parabens pelo filme

    ResponderExcluir