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9 de fevereiro de 2013

Retrospectiva Cangaço | Crítica: Baile Perfumado


BAILE PERFUMADO

Direção: Paulo Caldas e Lírio Ferreira
Roteiro: Paulo Caldas, Lírio Ferreira e Hilton Lacerda
Elenco: Duda Mamberti, Luiz Carlos Vasconcelos, Aramis Trindade...
Ano: 1997
Duração: 93 minutos

O homem que filmou o bando de Lampião merecidamente retratado nas telas, em um filme de poucos clichês biográficos.

Análise: Baile Perfumado é um cangaço que tem uma história alternativa e de poucas peculiaridades do gênero, pois, ao invés narrar às aventuras de algum destemido cangaceiro e suas secas e precárias vidas, ele se importa em focar no cinegrafista libanês Benjamin Abrahão, o único a conseguir tirar uma foto do “Robin Hood latino”  Lampião, uma das personalidades mais conhecidas de nossos últimos 100 anos. 
Padre Cícero (interpretado aqui pelo prolífico ator Jofre Soares) se tornou o responsável pelo então repercutido encontro entre o eminente bando de Lampião (Luiz Carlos Vasconcelos) e Benjamin (Duda Mamberti), sendo este o secretário do Padre antes que o mesmo morresse, em 1934.

Interessado em acompanhar os criminosos por um tempo, para que pudesse registrar o estilo de vida do grupo e poder comercializar depois, o libanês é mostrado na fita arranjando os equipamentos necessários para a filmagem, a prévia dos orçamentos e as fontes para reencontrar Lampião, além também do fato de seu trabalho não ter sido bem visto; com a finalização, há a suspeita morte de Benjamin, que teve o corpo furado por uma faca quarenta e duas vezes, sem que ninguém saiba quem foi o verdadeiro culpado.

A atuação de Mamberti como o protagonista se destaca no filme, esforçando-se e conseguindo fazer um convincente (e marcante) sotaque gringo. Afora ele, o elenco tem alguns atores de renome no cinema nacional, os quais obtêm razoáveis atuações: Luiz Vasconcelos interpreta um Lampião curioso e até um tanto quanto ignorante, sempre querendo saber mais sobre objetos que Benjamin utilizava, por mais ultrapassados que fossem, como a garrafa térmica ou a própria câmera fotográfica. 

Junto com a história do fotógrafo, também é notada uma subtrama, entrelaçando a história de Benjamin com a rivalidade de Lampião contra os volantes. Inclusive, é assim que o filme se inicia, com uma perseguição travada entre tais classes; o coronel até fica envergonhado ao perceber que um simples fotógrafo encontrara o perseguido e inabalável cangaceiro, enquanto seus volantes não tinham tal capacidade. Depois de finalizadas as gravações, Lampião escreveu uma carta para o amigo, afirmando que fora o único que filmou ele e seu bando (a carta pode ser lida aqui). 

Baile Perfumado tem uma direção razoável, comandada por quatro mãos que, em algumas partes, misturam o material coletado pelo verdadeiro Benjamin. Dando um show nos figurinos dos cangaceiros, o filme também conta com uma boa trilha sonora, com participações de artistas como Chico Science, Fred Zero Quatro e Lúcio Maia. 

MINHA NOTA: 
POR THIERRY VASQUES

25 de janeiro de 2013

Crítica | Django Livre

DJANGO UNCHAINED
(DJANGO LIVRE)

Escrito e dirigido por: Quentin Tarantino
Elenco: Jamie Foxx, Christoph Waltz, Leonardo DiCaprio, Samuel L. Jackson, Kerry Washington…
Duração: 165 minutos
Ano: 2012

Explosão de referências mascara o “filme dos sonhos” de Tarantino, mas ainda é capaz de fadar o cineasta de críticas.

Análise: Com o plano derradeiro e definitivo da penúltima obra de Quentin Tarantino, Bastardos Inglórios (2009), um típico contra-plongée que ascende o extasiado Tenente Aldo Raine (Brad Pitt) acima da plateia ao afirmar que “aquela” era sua obra-prima, imaginamos seu diretor mirando os espectadores e repetindo a mesma frase. Mas, com tantos filmes na carreira de vinte anos desta cult persona, fica até difícil descobrir qual é, de fato, o seu melhor projeto; o que interessa é que ele dificilmente erra o alvo, provando tal fato três anos após a cortina se cerrar para os “caçadores de nazistas” – essa contagem na vida real, pois, na ficção, o regresso é de quase 100 anos – para se abrir em uma revisita aos “caçadores-de-recompensa”. 
Ainda com Bastardos à tona, Tarantino mantém-se na mesma pegada quando se trata em reescrever períodos históricos com sua frisante criatividade. Em Django Livre, entretanto, ele não apenas reinventa uma época, mas também um gênero; e mais que um simples gênero, o western (se bem que, neste caso, podemos alterá-lo para southern, pois se passa no sul) foi aquele que consolidou o cinema norte-americano. É a partir desse ponto que a riqueza da película se mostra maior do que parece. Ao substituir a Segunda Guerra Mundial e suas figuras de vital importância por anos antes à Guerra da Secessão e a escravidão no sul de seu país natal, sem célebres personagens da vida real, o roteirista/diretor aposta mais uma vez no tema “vingança” – uma marca registrada já tão aclamada e utilizada na maioria de seus projetos. 

Dessa vez com um olhar mais aprofundado para a natureza social da época, ainda mais ao retratar os escravos como retratou (e gerou muita polêmica!), somos presenteados com uma abertura de fazer chorar os olhos mais sensíveis e fanáticos (os meus, por exemplo), na qual conhecemos o personagem-título: Django Freeman (Foxx) inicia como um coitado acorrentado, apesar de tal situação não demorar muito a se reverter, sendo nesta o primeiro dos ápices de toda a projeção – a libertação do escravo ganha sofisticação em uma câmera lenta, dramática e poética. E durante toda a negociação para sua compra, o nome e personalidade que mais ganha força é o do doutor e caçador-de-recompensas alemão King Schultz (o coadjuvante de peso, Waltz), dispensando comentários apenas por sua apresentação e se mostrando um calculista imperdoável como Hans Landa – os traços de ambas as personas parecem ter limitado o ator, que, apesar de tudo, dá um show. 

Liberto pelo estrangeiro com o objetivo de identificar três irmãos foras-da-lei, os quais eram seus antigos donos, Django ainda receberia a ajuda de seu mentor para resgatar a esposa Broomhilda von Shaft (Kerry Washington) das garras do vilão Calvin Candie (DiCaprio em uma atuação potente), herdeiro e dono da bizarra fazenda CandieLand, onde acontecem as chamadas “lutas de mandingos” – na qual escravos, ou praticamente gladiadores, guerreiam entre si até a morte. É com a primeira luta que o clima começa a esquentar por aquelas bandas, gerando como consequências cenas bastante pesadas e o aparecimento de outros importantes coadjuvantes na trama: Stephen (Jackson) é o negro preconceituoso com a própria raça, empregado de longa data da família Candie, e que acaba virando uma peça necessária para a história. Bem menos relevante – na verdade, apenas fazendo uma ponta com o simples intuito de ser homenageado – surge o “primeiro Django” (Franco Nero) questionando o nome do escravo e recebendo a já famosa resposta contida nos trailers: “Django... o D é mudo”


Como de hábito, a violência também não poderia faltar em sua forma mais brutal e mesmo assim hilariante, seja em cenas sanguinolentas ou em diálogos ácidos; a aspereza que preenche a tela chega a ser, inclusive, uma das mais visíveis de todos os filmes de Tarantino. O que pode soar como imprevisto aos fãs é a forma de como a narrativa se desenvolve: sem a montagem exorbitante da falecida Sally Menke, quem assume a função é Fred Raskin, e o resultado se mantém na média, variando de positivo (a transformação do escravo em um homem sem piedade) para negativo (a quebra do ritmo crescente com flashbacks). 

No aspecto musical, de nada se pode reclamar. Até mesmo as composições originais, que vão desde a suavidade de Freedom até o rap de batida forte de A Hundred Black Coffins, por vezes acabam se sobressaindo às músicas clássicas de Ennio Morricone, Luiz Bacalov e Riz Ortolani*. O que se pode ter certeza é que, independente da música, a cena automaticamente já ganha força tendo algum dedo musical do exímio conhecedor da cultura pop que é Tarantino. 
Com um tiroteio final em que é impossível não remeter ao estilo de Sam Peckinpah, Django Livre acrescenta à sua fórmula uma beleza estética bem sucedida e um nível cômico dos melhores em toda a obra do cineasta. Seu roteiro, igualmente genial, é capaz de relacionar o aparentemente comum nome de Broomhilda com a Valquíria da ópera de Richard Wagner, que, na lenda, é salva por seu amado Siegfried; captada pelas lentes de Tarantino, a cena se transforma em uma reverência na qual o sagaz Django capta a mensagem vinda das palavras do igualmente sábio Schultz. 

O abuso das homenagens e referências se faz amplo e, já que tudo em grande escala pode ser perigoso, alguns pontos de originalidade se perdem em tal quesito, mas se ganham em outros. A verdade é que implicar com isso seria “procurar pelo em ovo” simplesmente pelo egocêntrico e controverso cineasta sempre ter sido assim. E, mais ainda: por sabermos que Quentin Tarantino continuará seguindo a carreira como Quentin Tarantino! 

MINHA NOTA: 
POR BRUNO BARRENHA. 

* Para ouvir a trilha sonora completa, clique aqui

22 de dezembro de 2012

Retrospectiva Cangaço | Crítica: Corisco, o Diabo Loiro

 CORISCO, O DIABO LOIRO

Escrito e dirigido por: Carlos Coimbra
Elenco: Maurício do Valle, Leila Diniz, Milton Ribeiro...
Ano: 1969
Duração: 100 minutos

Adentrando na história de um dos maiores nomes do cangaço, Carlos Coimbra não hesita em deixar transparecer os dois lados da moeda.

Análise: Corisco, o Diabo Loiro é um filme de cangaço que relata a real história de um dos grandes nomes do antigo sertão nordestino: Corisco, que, além de comparsa de Lampião, também mantinha uma parceria com sua mulher, Dadá, a qual é captura logo no início da película. Mostra-se, assim, uma narrativa pouco comum, ao desenvolver o passado das personagens por meio de lembranças que eles têm enquanto são levados para a prisão. 

A história começa com Dadá (Leila Diniz) cortando o cabelo de Corisco (Maurício do Valle), ambos decididos a deixar o cangaço após a morte de Lampião (Milton Ribeiro). Porém, quando o casal está saindo do Ceará, é emboscado pelos volantes do tenente Rufino (Turíbio Ruiz), sendo que Dadá leva um tiro na perna e Corisco é gravemente ferido por uma metralhadora. Durante o caminho para a prisão, a dupla recorda, por meio de flashbacks, como foram parar nesta vida de sangue e insegurança. 

As memórias mostram todo o passado de Corisco, o qual iniciou sua vida como cangaceiro matando dois soldados que espancaram seu tio e castraram seu primo. Já pertencendo aos cangaceiros, ele se apaixona por Dadá quando esta tem apenas 13 anos, e não quer levar a injusta vida por entre matas e perigos. Ela só passa a andar com Corisco quando este se une a Lampião, após conhecer Maria Bonita, que permite que os homens andem com suas respectivas mulheres. Com o tempo, Dadá se acostuma nessa vida, inclusive mostrando coragem e sendo a única mulher a pegar em armas no bando. Corisco mostra ser um homem inteligente e, portanto, quer o mesmo de sua mulher, ensinando-a a escrever e repreendendo falas grosseiras. 


Um dos momentos mais marcantes é quanto Lídia (Geórgia Gomide) trai Zé Baiano (Antônio Pitanga) com Bem-te-vi (John Herbert), e Lampião dá o direito de Zé Baiano punir sua mulher como bem entender; então, ele a deixa uma noite pendurada no tronco e, ao amanhecer, cava uma cova em sua frente, espancando a mulher com um pedaço de madeira até a morte – para ele, esse é o preso de uma traição. Outra situação nada difícil de esquecer é o fogo cruzado que a população vive, recebendo pressão e sendo torturados, em busca de informações tanto pelos soldados quanto pelos cangaceiros.

Como comprovado em um diálogo entre Dadá e o tenente Rufino, o diretor Carlos Coimbra associa uma visão imparcial com relação ao cangaço, entendendo que tanto os volantes quanto os cangaceiros são iguais, muitas vezes matando sem necessidade, apenas pela influência em determinado pedaço de terra:

Dadá – Vivi no cangaço pela mesma razão que o tenente vive na volante. Matando, fugindo, vingando, não aceitando cabresto de coronel. A diferença é que macaco vive escorado na lei e é promovido toda vez que corta cabeça de cangaceiro. 
Rufino – Cangaceiro é bicho, soldado é caçador. 
Dadá – Caçador mata também, às vezes sem precisar. 

Tem-se aqui um ótimo filme, com uma grandiosa história mostrando o percurso de um dos maiores nomes do cangaço e abrangendo muito bem os detalhes da época, desenvolvendo também os dois lados da moeda e os personagens com atuações cativantes.

MINHA NOTA: 
POR THIERRY VASQUES. 

11 de dezembro de 2012

Retrospectiva Cangaço | Crítica: Nordeste Sangrento

 NORDESTE SANGRENTO

Direção: Wilson Silva
Roteiro: Ismar Porto, Francisco Pereira da Silva e Wilson Silva
Elenco: Paulo Goulart, Jacy Campos, Irma Álvarez
Ano: 1962
Duração: 72 minutos

Com direito a música de nosso “Rei do Baião”, o centenário Luiz Gonzaga, cria-se um filme médio e de muita religiosidade.

Análise: Nordeste Sangrento é um filme brasileiro dirigido pelo sergipano Wilson Silva, no ano de 1962, e ligado à época do cangaço; seu título foi retirado diretamente da música de Luiz Gonzaga, entre os quais podemos ver algumas semelhanças.

A ambientação da trama se passa em Juazeiro, no Ceará, e foi gravado na cidade de Maruim, Sergipe, com os habitantes atuando na figuração – mais um dos indícios da precariedade da produção, que, junto ao pequeno tempo de projeção, aumenta tais especulações no ato de ver a película.


Quando vemos pela primeira vez Zé Piedade (Paulo Goulart), um vaqueiro com sonho de conhecer o mar, ele se depara com um grupo de religiosos chicoteando a devota Izabel (Irma Álvarez). Zé intervém “erroneamente” na ocasião, já que as chicotadas eram um castigo para livrar a mulher dos pecados, e o seu cavalo foge. Na busca pelo animal, Zé, desta vez, encontra um grupo de cangaceiros liderados por Jacaré (Waldir Maia), com quem tem uma pequena briga; nada que impeça o reatamento da amizade, partindo para Juazeiro juntos dos religiosos com o objetivo de proteger o Padre Cícero (Jacy Campos) dos soldados comandando pelo Tenente Amado (Roberto Durval) – o motivo da intriga entre eles é o fato de o Padre querer se tornar um líder político. As duas partes entram em uma verdadeira guerra, com direito a canhão e duelo entre Zé Piedade e Tenente Amado no cemitério. 
De medidas religiosas assustadoras, percebemos que esta chega a desempenhar um papel especial no filme, porém, logo no começo, nos é revelado que o personagem principal é contra a religião, como por exemplo, quando ele tenta “salvar” Izabel e, logo depois, quando diz não conhecer o Padre Cícero, que era uma das grandes figuras do Ceará daquela época. Podendo até estabelecer laços com os dias de hoje, os conflitos que ocorreram durante o filme só se deram devidos a religião e política.

Nordeste Sangrento tem uma história limitada e com poucas subtramas, e mesmo tendo a curta duração de 72 minutos, a película apresenta muitos planos longos e desnecessários, que mais parecem para aumentar o tempo. O principal aspecto técnico é a trilha sonora, a qual dá ritmo ao filme e nos presenteia com a música homônima de Gonzaga, encaixando perfeitamente à narrativa.

“Felizmente o Juazeiro / Não lutará sozinho / O santo Padrinho Ciço / Mandou a gente rezar / E a maldade dos homens / Nos obrigou a matar”.

MINHA NOTA: 
POR THIERRY VASQUES. 

26 de novembro de 2012

Retrospectiva Cangaço | Crítica: A Morte Comanda o Cangaço

 A MORTE COMANDA O CANGAÇO

Direção: Carlos Coimbra e Walter Guimarães Motta
Roteiro: Carlos Coimbra, Francisco Pereira e Walter Guimarães Motta
Elenco: Alberto Ruschel, Aurora Duarte, Milton Ribeiro...
Ano: 1961
Duração: 100 minutos

Ao nível de um western na categoria B, a dupla de diretores realiza um dos clássicos do cangaço.

Análise: A Morte Comanda o Cangaço é um filme brasileiro que se situa em 1929, época na qual o nordeste de nosso país era dominado pelos típicos cangaceiros. A história de vingança é protagonizada por Alberto Ruschel e Milton Ribeiro – ambos participantes do maior filme do gênero, O Cangaceiro (Lima Barreto, 1953). A película foi indicada pelo Brasil para o Oscar na categoria de “Melhor Filme Estrangeiro”, porém não foi escolhida para a fase final da premiação. 


Raimundo Vieira (Ruschel) é um pequeno fazendeiro que tem sua casa queimada e sua mãe morta por um grupo de cangaceiros, liderados pelo Capitão Silvério (Milton Ribeiro), após o prejudicado ter se negado a pagar por “proteção”. Raimundo, no entanto, consegue sair vivo do ataque e deseja pôr fim à violência que os arruaceiros impõem no nordeste, e então monta o seu próprio bando, só de homens cansados da exploração pelos cangaceiros.

A vingança se inicia com a morte do Coronel Nesinho (Gilberto Marques), protetor e padrinho de Silvério, o qual, imediatamente, cavalga para retribuir a selvageria daquele que já sofrera do mesmo sentimento. Raimundo e Silvério, assim sendo, vão atrás de suas respectivas vendetas, um contra o outro; ao fim, encontram-se para fazer um duelo de facões, onde quem define o perdedor é uma mulher: Florinda (Aurora Duarte).

Só pela sinopse acima, percebe-se a importância das mulheres na película. Florinda, ex-mulher de Silvério, é capturada pelo bando de Raimundo e fica feliz por estar livre dos cangaceiros, acaba se casando com Raimundo e, ao final, escreve um papel influente para a definição do duelo entre os dois “maridos”. Maria dos Anjos (Ruth de Souza) é a atual “namorada” de Silvério, tendo se conhecidos em uma festa dos cangaceiros. Em busca do assassino de seu padrinho, Silvério e seu bando são emboscados por policiais, mas salvos justamente por Maria, que termina por levar um tiro; Silvério, tentando provar ser o cabra-macho que se mostra, nem sequer liga. 

O ambiente seco, característico do nordeste brasileiro, é bem explorado pela fotografia de Tony Rabatoni, que não evita em mostrar os problemas de algumas pessoas com a terra; um dos monólogos finais, narrado em off, demonstra isso por si só: “em uma luta desigual entre o homem e a natureza”. Ao fundo, em imagens, o bando de Raimundo atravessa uma seca caatinga (repleta de ossos de animais) e sofrem com o fim dos alimentos, porém a sorte está ao lado deles, possibilitando-os a presença de uma vaca pelo caminho.

Em uma substituição de cangaceiros pelos (antes) comuns caubóis, a película é uma forte construção de Carlos Coimbra e Walter Guimarães Motta, tanto na direção quanto no guião, que não deixar passar qualquer detalhe que a paisagem nordestina tem para dar. Estamos diante de um verdadeiro western B do cinema nacional – ou deveria dizer nordestern?  

MINHA NOTA:
POR THIERRY VASQUES.

6 de novembro de 2012

36ª Mostra Internacional de Cinema: Crítica | Rio de Ouro

 RÍO DE ORO
(RIO DE OURO)

Escrito e dirigido por: Pablo Aldrete
Elenco: Gonzalo Lebrija, Stephanie Sigman, Kenny Johnson...
Ano: 2010
Duração: 96 minutos

 As terras são, verdadeiramente, de quem as protege?

Análise: Em uma das pinturas mais conhecidas de Cândido Portinari, Os Retirantes, a representação que faz o pintor de um povo na caçada por melhores qualidades de vida é tão visceral que, caso não conhecêssemos a nua e crua realidade, dificilmente acreditaríamos que tal obra tentava presumi-la. Mesmo de difícil comparação, as semelhanças entre esse quadro brasileiro e o faroeste mexicano Rio de Ouro são muitas, partindo desde o primeiro plano do filme até as questões levantadas pelo mesmo, em um tema atemporal (logo, é atual) e polêmico como o desaparecimento de inúmeros indígenas – nós, tupiniquins, que o digamos do recente genocídio coletivo da tribo Guarani-Kaiowá. Talvez a única diferença entre os objetos de estudo acima seja, mesmo, o fato de os retirantes deixarem suas terras por vontade própria, devido a secas e derivados, ao contrário dos nativos, que são expulsos e, muitas vezes, exterminados sem deixar rastro de sua própria cultura, preocupação tomada pelas lentes do realizador Pablo Aldrete. 

“Deus, por que deixais que matem meu povo?”

Um tropeiro preza pela venda de seu rebanho e a jovem Estela só pensa em continuar a viver depois que sua família é morta por um índio que ensaia uma raivosa retomada das terras de sua tribo; enquanto isso, dois soldados norte-americanos exploram esta mesma região em busca de ouro. Apenas pela premissa em questão, encontros e desencontros já se fazem previsíveis desde o início, além da retomada do clássico tema envolvendo brancos e índios, mas, desta vez, com um tempero a mais: os mexicanos. 

Percorrendo as três camadas combatentes, nota-se um desenvolvimento pouco verossímil entre elas e, principalmente por ser uma produção do México, há certa desvalorização do país vizinho e eterno inimigo, os Estados Unidos. E, para clarear a visão sobre o frequente sumiço indígena, um valente paralelo é subentendido: comparam-se animais aos nativos, em cenas de tortura a ambos, nas quais são escalpelados. Não parando por aí, o roteiro desequilibra-se e passa a caminhar por linhas confusas quando idealiza os indígenas ora como seres oriundos da natureza e nada mais que isto, ora como homens sem escrúpulos (igual àqueles que lutavam contra), prendendo mulheres na aldeia pelo mero desejo de punição aos brancos; querendo ou não, é o que desacelera o ritmo quando mais se precisa de atenção. 

Focado na investida para compensar os erros da escrita, Aldrete faz de sua direção algo ousado e alegórico, com paralisações na imagem em lances inesperados, como no sangue espirrando por todo o ar. Apesar de tentar, cria situações desestimulantes, e o que mais incomoda são a gama de imagens aleatórias da natureza, aparentando falta de material para compor os fotogramas, fora os flashbacks nulos e duvidosos, comprometendo a fita também pelas atuações forçadas e frouxas, sem firmeza. 

Visualmente, a lente e o olhar do fotógrafo Lorenzo Hagerman alcançam o mais distante dos pontos no deserto mexicano e tentam dar mais vida à morte e sofrimento dos índios; como já se aguarda em um faroeste, faz sua parte em planos abertos, e, igualmente, naqueles que contém uma fina violência. 

 “Mexicanos, índios... Eles são o mesmo”

Moderno e polêmico, nada impede que o assunto de Rio de Ouro se afogue e vaze por água abaixo, perdendo-se nas profundezas midiáticas; foi o que, de forma infeliz, o próprio Pablo Aldrete fez. Por causa da presença de outros temas a tratar na película, ele não descarregara seu foco somente em um, mas sim em todos, convertendo-se em uma desordem completa. Para finalizar, entretanto, o diretor não perdeu o brilhantismo de sua abertura: o índio solta um grito de inexistência, do alto de um morro, na solidão abaixo. É como se sussurrasse: as terras são, verdadeiramente, de quem as protege? 

MINHA NOTA: 
POR BRUNO BARRENHA. 

5 de novembro de 2012

36ª Mostra Internacional de Cinema: Crítica | Estrada de Palha

 ESTRADA DE PALHA

Escrito e dirigido por: Rodrigo Areias
Elenco: Vítor Correia, Inês Mariana Moitas, Nuno Melo, Ângelo Torres...
Ano: 2012
Duração: 90 minutos

Desobediência civil na dosagem certa para contrapor metáforas.

Análise: Antes da terceira exibição de Estrada de Palha – faroeste de coprodução Portugal/Finlândia do qual eu, de fato, não sabia o que esperar – pela 36ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, os gajos Rodrigo Areias e Vítor Correia foram dar uma palavrinha com o público presente na sala da Cinemateca, alertando de que a projeção à nossa frente era um filme de baixo orçamento [50 mil euros] e que muito fora reciclado do gênero para ser, então, reutilizado. E, pouco antes de deixar a sala ao lado de seu ator-fetiche – a dupla estava visivelmente cansada, o que viria a ser confirmado mais tarde – e dar início à sessão, Areias matutou nossa cabeça ao anunciar seu retorno ao fim da mesma, querendo ser elogiado... ou criticado. 

Já com as luzes apagadas (e os cineastas à vontade em suas poltronas), somos surpreendidos pelo primeiro dos inúmeros excertos do livro político A Desobediência Civil, do americano Henry David Thoureau: “O melhor governo é o que não governa”. Tais fragmentos, inclusive, serão os responsáveis por guiar a todos no decorrer do filme, seja como metáfora do mundo atual (sobretudo da Europa, que vive em tempos anestésicos de crise) ou simples elemento de ligação para as ações em tela. 


Há pouco mais de 100 anos, em um dos mais importantes períodos da história de Portugal, a Implantação da República, o pastor Alberto Carneiro (vivido por Vítor Correia, em uma mistura física de Lee Van Cleef e Daniel Day-Lewis) cerca-se apenas pela neve e pelo frio na província finlandesa da Lapônia, até ser comunicado por meio de cartas que seu irmão fora assassinado em seu país-de-origem, de onde já estava afastado por cerca de uma década. A partir de então é que o país português dá, definitivamente, suas caras; abriga, como um bom anfitrião, todas as cenas dali ao final, por maior que seja a dificuldade em leva-la ao descampado requerido. É com esse pano-de-fundo, o da vingança, que se caminha pela estrada de palha – aqui mais uma das metáforas, sendo a tal “palha” usada para disfarçar a sujeira dos animais nas aldeias daquela época; ou seja, uma pura comparação com os políticos. 

Para a passagem do tempo, enquanto seu protagonista viaja na volta a Portugal, Areias importa-se em mostrar o mesmo entrando em navios, trens e, acima de tudo, faz com que sua barba cresça – tudo a medida em que os créditos passam. Uma técnica bastante válida, que nos oferece o necessário para termos a noção de tempo exata. E, quando finalmente chega ao destino, encontra o país em ruínas políticas, na mão de aproveitadores, fato que se encara com normalidade – hoje e ontem. Um dos algozes de Alberto é o general (ou um quase xerife) interpretado por Nuno Melo, que mergulha em seu papel assim como o restante do competente elenco o faz, com uma menção (mais do que) especial para Correia, soberbo até em cenas nas quais o corpo deve estar mais descansado que a própria mente. 

Assinando pela segunda vez o cargo de diretor em longas-metragens (o pontapé se deu com Tebas, em 2007), Rodrigo Areias pende a balança deste seu último trabalho para o lado mais monótono e reflexivo, além de escrever diálogos provocadores e praticamente eliminar a ação exacerbada, tomando só o necessário para tal. Entretanto, talvez o mais interessante em seu ponto-de-vista como realizador seja a criação de um embate na relação entre homem e natureza, compondo planos abertos e fazendo assim o realce inevitável na fotografia de Jorge Quintela, que oferece mais beleza a relances narrativos. 

Em aspectos sonoros, a nostalgia de sons lisérgicos são impressos como melodias aos ouvidos dos amantes do velho-oeste, remetendo-nos à época de Sergio Leone e seu universo à parte: o do desenho de som. As honras prestadas aos seus “filmes sonoros” (Era uma vez no Oeste é o apogeu deles) apenas somam pontos para o crescimento desse western bacalhau. Musicalmente, Paulo Furtado e Rita Redshoes tentam alcançar a áurea já cunhada por Ennio Morricone no gênero, seguindo os mesmos passos do lendário maestro ao extrair de instrumentos pouco convencionais e criar faixas predispostas a grudar na cabeça por algum tempo; não é o necessário, porém, para a dupla adentrar um patamar deveras elevado. 


A difusão do eurowestern, apesar de em menor escala em Portugal, fez com que o país se avantajasse e desse um passo a frente para a produção de Estrada de Palha. Um dos pontos favoráveis para isso é no que diz respeito à sua localização estratégica, dividindo fronteira com a Espanha (uma das expoentes do gênero antes tipicamente americano) e estando próximo de grandes produtores, como Itália e Alemanha. Revelando-se um trabalho de conteúdo político, ético e poético, o ato final somente ecoa tais características obra adentro, como um dos melhores de toda a película; o pistoleiro Alberto enterra sua arma e evita o duelo com quem mais o procurara, sugerindo uma das frases mais fortes de toda a sétima-arte, declamada pelo eterno poeta da violência, Sam Peckinpah: “O fim de um filme é sempre o fim de uma vida”. No caso de Estrada de Palha, quem teve fim foi o faroeste. 

MINHA NOTA: 
POR BRUNO BARRENHA. 

31 de outubro de 2012

Crítica | O Laço do Carrasco

HANGMAN’S KNOT
(O LAÇO DO CARRASCO)
                                    
Direção: Roy Huggins
Roteiro: Roy Huggins
Elenco: Randolph Scott, Donna Reed, Claude Jarman Jr...
Ano: 1952
Duração: 81 minutos

Roy Huggins mostra um bom serviço em seu único trabalho como diretor.

Análise: O Laço do Carrasco é um western norte-americano dirigido por Roy Huggins, o único filme no qual serviu à cadeira de diretor. Inclusive, ele é mais conhecido por ser escritor e também produtor e criador de séries para a televisão. Essa película conta com um elenco de peso, sendo o famoso Randolph Scott o grande destaque.


Um grupo de Confederados liderado pelo Major Matt Stewart (Scott) monta uma emboscada a uma diligência carregada, de outra União. Ao cumprirem tal missão, descobrem da boca de um soldado inimigo que a Guerra Civil Americana já havia acabado. É então que o grupo de Matt decide ficar com o ouro para eles conseguirem manter uma vida estável após a guerra. Porém, eles são atacados por bandidos liderados por Quincey (Ray Teal), que encurralam Stewart, seus homens e mais quatro reféns em um posto. Para resolver a situação, Stewart não irá apenas confrontar os bandidos, mas também uma disputa interna com Rolph Bainter (Lee Marvin). 



O filme explora muito bem os seus personagens, inclusive traçando características psicológicas - em seu começo, por exemplo, em que podemos perceber diferenças nos três principais nomes do grupo de confederados, o líder Matt Stewart, que mostra ser um homem digno e um tanto gentil; Rolph Bainter, um homem ganancioso e covarde, muitas vezes ignorando o seu chefe e matando pessoas por impulso; e também Jamie Groves (Claude Jarman Jr.), um jovem que entrou para o grupo após a sua família ser morta pela guerra, não é ambicioso e tenta evitar mortes. E também dos reféns, Margaret Harris (Jeanette Nolan) é uma mulher traumatizada por ter perdido o seu marido e o seu filho durante a guerra; ela é contra a presença dos sulistas em sua casa, que é o posto da diligência; Molly Hull (Donna Reed) é uma enfermeira do Exército da União, que acaba cuidando de um soldado Confederado ferido como se fosse qualquer outra pessoa precisando de ajuda, sendo que no final ela acaba se apaixonando por Stewart; e Lee Kemper (Richard Denning) mostra não ser um homem que cumpra palavras, além de ganancioso e não se importando com os outros. 

Já o fim de projeção passa a mensagem de que os justos sempre sobrevivem: apenas Stewart, Jamie, Margaret, Molly e Plunkett (velho que cuida do posto de diligência e é interpretado por Clem Bevans) conseguem continuar vivos após o confronto entre os Confederados e o grupo de bandidos. Os sobreviventes deixam o ouro conquistado de uma forma injusta para trás e sem comprometer a reconstruir o local. 

Em seu único trabalho como diretor, Roy Huggins faz uma direção segura, criando uma história envolvente e com muitos personagens marcantes, aproveitando da bela paisagem rochosa e desértica do local. 

MINHA NOTA: 
 POR THIERRY VASQUES.